UM ESCRITOR GENTIL, A REVOLUÇÃO DOS CRAVOS E OS PERRENGUES DE UMA FOCA EM TRANSIÇÃO

Foto: Gabriela Palha

 

A fase de foca é uma dor e uma delícia, como o viver na definição de Caetano Veloso. Mas essa última condição a gente só percebe quando vira repórter cascuda e seminova, minha atual condição, se bem que antecipada há mais de uma década pela língua ferina de Roberto Albergaria. Volto a falar dele, pois nessa minha transição de foca para repórter ele tem forte protagonismo. Ainda bem. No espaço além da vida que existir para hereges bem generosos, sei que ele anda muito feliz e com aquela gargalhada de sons curtos, quase um murmúrio e, por isso, ainda mais divertida.   

 

*

 

Era uma manhã razoavelmente tranquila e isso por si só já era um perigo. Repórter não vive dia fácil. Por volta das onze da manhã, eu já estava cumprindo minha segunda e última pauta: a cobertura do evento de uma montadora no requintado Trapiche Adelaide. Era um quebra-galho para a editoria de automóveis porque a pessoa que não sabe dirigir até hoje daria uma péssima repórter desse setor. Mas gente da editoria de Cidade é meio médico clínico: faz de tudo um pouco. 

 

Fui já sabendo como seria: pegar algumas informações e sair o mais rápido possível. Eu nunca ficava para pautas que terminavam em almoço. Não por arrogância, mas por detestar a piada velha tipo tio do pavê de que jornalistas gostam de boca livre. Certa vez, ouvi isso diretamente da fonte promotora do evento, para desespero do pobre assessor de comunicação. Se eu já não ficaria no tal rega-bofe, acelerei meu movimento leão da montanha, sempre com saída pela esquerda. Voltando ao Trapiche Adelaide: como eu ficaria no evento em que a mulher de um dos diretores chegou com um casaquinho sem mangas e de vison nessa ensolarada Cidade da Bahia embora o ar-condicionado do restaurante fosse quase uma carícia? Olhei para aquela bela vista da baía ali perto da encantadora Gamboa, me despedi e me mandei, aliviada.

 

Em questão de 30 minutos, estava de volta à redação sem acreditar que, no máximo, às 14 horas eu já estaria em casa. Engano total como alertou minha intuição. Isso é outra coisa forte em repórteres. E a minha, modéstia à parte, é quase infalível. Logo estava diante do chefe de reportagem que me explicou a sua necessidade de que eu fosse ali, em Lauro de Freitas, para cobrir um evento muito importante: a reunião de um grupo de escritores em um projeto de aproximação entre a Bahia e Minas.  Quem eu iria entrevistar naquele fim de manhã e início de tarde? Fernando Sabino. Mas não apenas: Zuenir Ventura, Marina Colasanti, Roberto Drummond e Alcione Araújo. Simples assim. 

 

Enquanto eu lia o material de divulgação, comecei a lembrar, por meio desse labirinto que é a associação de ideias, do escritor Ruy Espinheira Filho que tive a sorte de ter como professor da disciplina Ética, na Facom. Durante uma aula, ele disse que omitíssemos nossa condição de seus ex-alunos caso tivéssemos a desfaçatez de perguntar a um escritor o nome da sua obra mais importante. Imagine. Da listinha que eu tinha só havia lido 1968, o ano que não terminou, de Zuenir Ventura e, não tinha muita certeza, alguma crônica de Fernando Sabino.

 

Nunca o trajeto para Lauro de Freitas foi tão angustiante. Até a fome passou e vejam que era a minha sina daquele dia ficar zanzando por restaurantes. Eu deveria estar devendo alguma coisa a Dionísio ou outro patrono da gula. Finalmente cheguei para o que eu considerava uma viagem em direção a uma humilhação histórica. Tanto que nem mexi um músculo quando alguém da produção me disse que Roberto Drummond não ia chegar a tempo. Em seguida, me indicou onde sentar: entre Fernando Sabino e Zuenir Ventura.  

 

Adotei como pude a minha cara de paisagem (essa é outra das habilidades de repórter cuja denominação devo à colega Sylvia Verônica de quem ando com muita saudade, pois não nos encontramos há muito tempo). Essa arte é fundamental e nos exige muita paciência e treino para ficar perfeita. Mas, quando a gente aprende, é uma arma poderosa. Nada abala uma boa cara de paisagem. Nem o furo, cada vez mais raro, nem aquela frase de efeito da sua melhor fonte que ainda fica meio cabreira por não ter lhe tirado da sua tranquilidade, quando o seu coração está a 220 batidas por segundo.  

 

Tudo corria tranquilamente e eu me fixava na entrevista sobre o projeto, o que eles mais gostavam de Salvador e por aí ia seguindo até que Fernando Sabino, logo ele, me fez a fatídica pergunta: 

 

“Qual livro meu você já leu?” 

 

Eu só conseguia visualizar o professor Ruy Espinheira diante de mim. E aí sob o patrocínio da disciplina em que ele foi meu mestre preferi dizer a verdade: 

 

“Nenhum.” 

 

A voz quase não saiu e me preparei para receber algum tipo de rebate irônico, no mínimo. Mas eis que a sua resposta foi: 

 

“Vamos corrigir isso agora. Coloque aqui o seu endereço.”

 

Eu, meio trêmula, escrevi o endereço. E aí danei a conversar. Contei inclusive que tinha acabado de publicar um livro-reportagem. Vejam a ousadia da foca. E até fiz rasgados elogios ao livro de Zuenir Ventura que já tinha lido mais de uma vez. Ele riu e Fernando Sabino completou:   

 

“Ora. Então, o Zuenir você leu, né?”

 

E eu: 

 

“É… um livro-reportagem. Eu gosto muito.”

 

Era hora de ir embora, o alarme avisou, pois a minha cota de sorte já tinha se esgotado para um dia inteiro. Me despedi e Fernando Sabino perguntou meu nome:  

 

“Cleidiana.” 

 

E ele: 

 

“Que bonito. Esse nome é diferente. Dá até poesia.”

 

É, senhora e senhores, saí como se tivesse, sei lá, feito o gol da vitória do Flamengo na final do Mundial, em uma disputa de pênaltis. Alguns dias depois encontrei no meu escaninho um exemplar de No fim dá certo com uma dedicatória e mais uma carta. Eu, óbvio, enviei um exemplar de Os caminhos da Água Grande e ele me mandou outra carta agradecendo. 

 

Alguns anos depois, eu já era uma repórter. A gente não sabe exatamente como se faz a transição da condição de foca, mas ninguém me chamava mais assim. Já na Editoria de Domingo, aprendi e pude exercitar a técnica de reportagens especiais. Eram duas ou três por semana e também entrevistas de página inteira. Para esta seção me mandaram entrevistar Mario Soares, que foi primeiro-ministro e também presidente de Portugal.  Como o aviso veio de véspera, tive tempo de me preparar em casa fazendo uma extensa pesquisa. Mas aí o tal do alarme soou assim que cheguei na redação. Meu chefe me passou um roteiro com o aviso de que as perguntas teriam que ser feitas naquela linha. Era algo muito intrincado sobre direito e relações internacionais. Fiquei em pânico como nos meus tempos de foca encurralada. Detesto esses roteiros fechados de entrevista. Não é que não os faço. Pelo contrário. É a melhor técnica, mas apenas me serve como tópicos para deixar a conversa fluir pois sou admiradora da entrevista como diálogo possível, como ensina a grande Cremilda Medina. Mas ordens são ordens.    

 

Comecei a entrevista e não houve química com o entrevistado. Eu comecei a gaguejar enquanto lia o tal do roteiro, mesmo porque nem sabia direito o que estava perguntando. Para piorar, eu custava a entender completamente o que ele dizia. O português de Portugal, me desculpem, é uma tortura. E ele dizia às vezes duas palavras como se fossem uma e eu demorava para compreender. A irritação do homem chegou ao nível em que ele perguntou se eu não queria dar o roteiro para que ele mesmo lesse. 

 

Eu quis desparecer, mas precisava manter a dignidade e aí fiz alguma pergunta sobre a Revolução dos Cravos, o movimento que fez Portugal se reencontrar com a democracia. Ele me interrompeu e perguntou: 

 

“Quando foi a Revolução dos Cravos?” 

 

Sem pestanejar e sem gaguejar, com a segurança de quem fez o dever de casa, respondi.       

  

“25 de abril de 1974.” 

 

Silêncio. Quando ele voltou a falar, parecia outra pessoa. A conversa fluiu e logo estávamos em uma conversa animada. Ele fez vários elogios à Cachoeira, que eu logo indiquei como o lugar onde nasci. E ele disse que não sabia como deixávamos a cidade descuidada e só tínhamos olhos para o Pelourinho.  

 

Logo estávamos em uma alegre tertúlia sobre José Saramago e Eça de Queiroz. Eu, disse a ele, meu São Gonçalo, que achava o primeiro melhor que o segundo. Ele retrucou afirmando que, mesmo sendo amigo próximo de Saramago, considerava Eça incomparável. Ainda bem que não chegamos a Camões ou Fernando Pessoa porque aí acabaria meu repertório. Mas vejam que ainda tivemos assunto porque lhe contei a saga de construção do meu livro-reportagem (com a primeira criação o entusiasmo é muito grande, gente). Mas o foco foi lhe contar como um documento encontrado na Torre do Tombo abriu as portas para que soubéssemos da condição de donatária de João Amaro, distrito de Iaçu. Narrei como um morador local, seu Valdemar Ferraro, reconstruiu a cadeia sucessória das terras e levou vinte anos, com o auxílio de uma lupa, transcrevendo a carta donatária para datilografá-la e que compartilhou comigo seu impressionante acervo. Não disse, mas agora me vem à cabeça que seu Ferraro poderia ser um personagem de Saramago, como o Sr. José, de Todos os Nomes.  

   

Era hora de me despedir- o alarme que avisa sobre o estado de sorte não falha. Ele então me deu um cartão e disse que quando eu fosse a Lisboa esperava uma visita ao instituto que leva o seu nome. E acrescentou:   

 

“Fica em frente à Torre do Tombo.” 

 

Essa viagem ainda não consegui fazer. Está aqui entre os muitos planos que me alimenta nos piores dos dias que têm sido tão difíceis com tanta desesperança nesse país que já perdeu até o encanto do realismo fantástico de Gabriel Garcia Márquez.  Mas é preciso ter esperança, pois como diz o título do livro que ganhei de Fernando Sabino, um arcanjo em uma quase desventura de foca, “no fim dá certo”. Tem que dar. É preciso.   

 


Cleidiana Ramos é jornalista e doutora em antropologia

 

 

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