NOTAS E REFLEXÕES SOBRE EXU PARA ALÉM DA FÉ

 

 

Foto: Amanda Oliveira

 

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Apesar de ser uma iniciada no candomblé, quero apresentar o perfil que transcende a minha fé pessoal. Escolhi falar de Exu a partir da perspectiva que o aproxima a outros entes de culturas tão distintas como o nórdico Loki e o grego Hermes. Mas diferentemente desses, Ele não para de se construir e se reconstruir. Estica suas influências, experimenta outras nuances, se faz temido, amado, celebrado, mas sem perder a leveza. E isso para um deus que conhece os segredos dos caminhos entre tantos mundos possíveis, que escolheu as encruzilhadas e toda a sua potencialidade energética e comunicacional como o seu reino. 

 

Exu é a síntese de um sofisticado pensamento filosófico instituído por civilizações africanas diversas. É patrono, por essas e outras, de algo tão fascinante e misterioso e ao mesmo tempo tão simples: os meios de comunicação de massa. Acolhedores, fáceis de usar, mas se houver um descuido transformam-se em armadilhas. E em tempos de redes com embates e tretas, eu quase posso ouvir a gargalhada sonora e alerta de Exu, tão à vontade com bytes e megabytes como esteve com as ondas do rádio. 

 

Exu é uma grife, como me ensinou a grande sacerdotisa Ebomi Cidália Soledade (1930-2012) consagrada a Iroko, o senhor que mora nas gameleiras e que também preside seus mistérios. Essa palavra foi usada por ela para dar conta de tantas facetas desse deus. Porque ele possui missões que, ainda sob os ensinamentos de Ebomi Cidália, o leva a atuar como em uma empresa de segurança: tem o especialista na proteção da porta; outro que vigia a guarita; aquele que observa as intersecções das ruas e também esquinas, passarelas viadutos e tudo mais que for caminho para se passar em direção a outro lugar e quiçá novas dimensões.

 

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Aprendi também com Ebomi Cidália que a Exu não se pede nada porque ele é mais rápido que o pensamento e, antes que o nosso se forme, tudo já lhe foi revelado e está sob o seu julgamento: vale ou não a pena? Segundo a sabedoria de Ebomi Cidália, Salvador estava esquecendo de Exu. A cidade, segundo ela, precisava atentar para o reforço da proteção especialmente desses encontros de caminhos. Por isso, avaliava, de vez em quando se registram tragédias nas zonas de passagens, mas sob o seu povo Exu não diminui a vigilância protetiva. “Veja se acontece algo com gente voltando dos terreiros madrugada adentro. Você tá vendo?”. Dito isso abria o seu largo sorriso. Ebomi Cidália era alguém de muita fé. Ela dizia ver, ouvir e sentir orixá como acontece com as pessoas. 

    

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Mas eis que encontrei em Roberto Albergaria, que nos deixou em 2015 e que se auto definia como um herege – porque ele dizia que não queria ser confundido com alguém incapaz de pensamento mágico – dono de uma fé inabalável em Exu, segundo seu próprio testemunho: “Eu só acredito em Exu, no Caboclo Eru e na Pomba Gira”, repetia sempre um dos mais brilhantes intelectuais que conheci e que escondia tantas e tantas vezes sua erudição na capa do deboche. Ele dizia que sim e acho que se tornou real, mesmo sem a formalização, a sua adoção por Exu como um de seus filhos. Albergaria também gostava de colecionar imagens de Padilhas, uma face feminina de Exu que o candomblé, especialmente a tradição Ketu não celebra em larga escala, mas a umbanda a adotou. Certa vez Albergaria me atormentou com um pedido de ajuda para que encontrasse um sofá na cor vermelho e assim deixasse o seu “cantinho das Padilhas” de acordo com o que idealizou. Uma gentileza de um admirador que, mesmo sem a fé, mas com a curiosidade nascida pelo encanamento da potência do conceito, tornou ciência. Tem algo mais Exu do que isso?      

 

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E se tem a face feminina chamada de Padilha e também Pomba Gira, em determinadas perspectivas, Exu ganha outros nomes como Zé Pelintra, que, com a sua elegância de terno e chapéu brancos, passos medidos e um eterno sorriso de canto de boca inspirou, dizem, a criação de Zé Carioca, o personagem dos poderosos estúdios Disney para recepcionar o Pato Donald no filme The Three Caballeros lançado em 1944 e que trouxe uma versão em inglês de Você já foi à Bahia?, do grande Dorival Caymmi. Ora! Estão pensando que Exu é brincadeira? Dobrou até a poderosa máquina da indústria cultural norte-americana quando seu semelhante Loki só agora chegou e ainda assim teve que perder uma parte considerável da sua potência porque é “vilão”. Nada. Exu jamais se deixaria dobrar assim.  

 

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A relação entre Exu e Salvador é longa, antiga e muita intensa. Já disse e reafirmo: não há limites para quem conhece todos os segredos sobre movimentos e caminhos. Assim, senhor das trilhas da cidade, Ele já deveria estar por aqui dialogando com encantados indígenas, alertando que logo povos que não sabiam da existência uns dos outros se veriam em uma intricada teia de conquista, disputa e, infelizmente, muito sangue e sofrimento. Por isso ele e outros das suas irmãs e irmãos divinos atravessariam um oceano para estar junto aos seus dando consolo. Era uma época em que talvez assumisse o nome de Nizila, como essa força é conhecida nas tradições de povos angola-congo; depois estaria sob a identidade de Elegbara, denominação equivalente nos grupos fon.      

 

Mas nem por isso deixou de se “abrasileirar”: virou Tranca Rua, Caveira,  Seo Zé ou “O Homem”. Gosta de cachaça – e quem diz que essa forma de preparo da bebida não é coisa fina? – mas também aprecia bom vinho e tem um paladar refinado. Esqueçam o reducionismo da farofa. Exu sabe comer muito bem. E está à vontade em sua Cidade da Bahia. Duvida? Vamos então consultar a obra de Jorge Amado que tanto trafegou pelo mundo da crônica cotidiana e da ficção porque estava à vontade com essa intersecção em que magia e razão se interrelacionam a ponto de não se saber onde uma e outra termina: 

 “Quem guarda os caminhos da Cidade do Salvador da Bahia é Exu, orixá dos mais importantes na liturgia dos candomblés, orixá do movimento, por muitos confundido com o diabo no sincretismo com a religião católica, pois ele é malicioso e arreliento, não sabe estar quieto, gosta de confusão e de aperreio. Postado nas encruzilhadas de todos os caminhos, escondido na meia-luz da aurora ou do crespúsculo, na barra da manhã, no cair da tarde, no escuro da noite. Exu guarda sua cidade bem-amada. Ai de quem aqui desembarcar com malévolas intenções, com o coração de ódio ou de inveja, ou para aqui se dirigir tangido pela violência ou pelo azedume: o povo dessa cidade é doce e cordial e Exu tranca seus caminhos aos falsos e aos perversos” (Bahia de Todos os Santos – Guia de ruas e mistérios, Jorge Amado, p.13)     

 

Como aponta Jorge no trecho recém citado, tentaram associar Exu ao diabo. E nem foi ao  belo e inteligente Lucífer, “luz da manhã”, o arcanjo rebelde e inconformado nem se sabe direito por quê. Tentaram associá-lo ao monstrengo com chifres e pés de bode semelhante ao que já haviam feito com o belo Pã por conta de suas peripécias e exercício da liberdade como encantado da natureza. Mas qual? Imagina se Exu se deixaria ser aprisionado assim. Sua gargalhada deve ter ressoado nas dimensões dos mundos conhecidos para além da filosofia humana diante de tanto desaforo. E eis que ele venceu a disputa, pois segue seu caminho em desafio aos intolerantes resistindo, se reconfigurando, se transformando e até deixando que seu nome possa ser ressoado em alto e bom som nas mais diversas criações sem a necessidade do murmúrio de outros tempos.  

 

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Exu está em camisetas, nas canções, se exibe em monumentos pela cidade e tem disposição para se revelar a quem quiser ou precisar vê-lo. Lembro de um dia angustiante, há mais ou menos uns cinco anos. Viajando cedo em um ônibus para uma demanda que não era agradável e me pesava na alma, olhei pela janela para um ponto na avenida Bonocô e lá estava um homem acocorado diante de duas páginas abertas de um jornal na calçada, com um cachimbo no canto da boca. Foi coisa de instantes a visualização da cena. Ele sequer olhou para mim, mas cá no meu íntimo de quem acredita em magia eu compreendi e comecei a encontrar ali uma resposta para as minhas angústias. 

 

Algum tempo depois, quando me dirigia para uma atividade de ensino, algo que se tornou uma nova carreira e aplacou parte da minha inquietação. Eu passava pela Avenida Garibaldi muito cedo, antes das sete horas da manhã, duas vezes por semana. E, por várias vezes o vi: alto, de corpo longilíneo, barbudo, cabelos compridos, em dreads. É um andarilho, sem teto, ou como desejarem chamá-lo, mas gostei da denominação que uma aluna me disse ser corrente para definir o personagem: o Exu da Garibaldi. Ele recolhe as ofertas que as comunidades do povo de santo depositam na rua e que não “são para fazer o mal”, pois gente que acredita em inquice, orixá, vodum, caboclos e encantados não perde tempo com mesquinharias em relação ao outro. Geralmente, o presente depositado na rua é em busca de cura para si mesmo. Pois certa feita o vi desfilando com uma galinha segura pelas asas. A dignidade do seu caminhar e um alheamento imponente ao que está em volta é algo hipnótico. Vai dizer que não pode ser Ele mesmo mostrando o quanto fica completamente à vontade na cidade que Jorge Amado já disse que é sua? 

 

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E a gente sabe que é mesmo. Porque Exu ama a beleza: movimento, rapidez, profundidade sem complexidade; complexidade na simplicidade; leveza, mas também alerta; ordem e caos, ou do contrário não há equilíbrio. E tem o riso. Exu é aquela risada gostosa de quando se entendeu a piada; a gargalhada que tira todo o peso da alma ou até mesmo aquele sorriso discreto do triunfo. De alguma forma são características que se encaixam em Salvador. 

 

Como não respeitá-lo, como não saudá-lo e deixá-lo distribuir seus encantos, seus dons e sua generosidade? Laroye, Senhor dos Caminhos: por favor, fale, publique, edite, mobilize as redes em seus bytes, terabytes e contagens em “k”. 

 

A comunicação social é toda sua, afinal ninguém conhece melhor os seus mistérios. 

 

Cleidiana Ramos: A jornalista e doutora em antropologia (UFBA), possui experiência com pesquisas em festas populares e de largo; religiosidades; culturas afro-brasileiras; gênero e questões étnico raciais. Ela é autora dos livros Os Caminhos da Água Grande (1998) e A Janela de Dona Ubaldina’ (2004). Também é co-autora, com professor Jaime Sodré (1947-2020), de Ebomi Cidália: a enciclopédia do candomblé (2014); e Inventário das festas e eventos na Baía de Todos os Santos com Fátima Tavares, Carlos Caroso e Francesca Bassi (2018). 

 

 

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