EXÚ EM FYGURA, FYGURA EM EXÚ

Foto: Bauer Sá

 

Tentei iniciar este texto algumas vezes sem sucesso. Cheguei a escrever algumas frases, mas nada tinha muito sentido, na verdade não tinha encontrado o caminho. Mas como encontrar o caminho, sem antes pedir licença e oferecer um agrado ao dono das porteiras? Assim que me dei conta disso e fiz o que era necessário, tudo fluiu. Eis que encontrei o caminho e aqui estou.  

 

Exú, Legbá, Eleguá, Bará, Aluvaiá, Izila, Pombajir, Padilha. As entidades mensageiras entre os mundos material e imaterial, responsáveis pela comunicação entre os homens e seus deuses. O papel dessas divindades é fundamental para o funcionamento do sistema, seja qual for a matriz dos cultos afro-brasileiros (angola, jeje ou ketu), e nenhum procedimento religioso é realizado sem que antes sejam homenageadas. 

 

A meu ver, Exú é uma das divindades mais incríveis do Panteão Afro-Brasileiro, e por essa razão exerce verdadeiro fascínio naqueles que se debruçam sobre seu verdadeiro sentido, naqueles que decidem compreender seus domínios. Gira que gira Exú, é movimento, é o princípio dinâmico da vida, é o Senhor das porteiras, é dono dos caminhos, ele não tem domínio próprio, tem todos os domínios. 

 

Infelizmente, a grande maioria dos brasileiros desconhece seu verdadeiro significado. Uma das estratégias coloniais, como tática de dominação e conquista de poder, foi a demonização das religiões de matriz africana e em especial a dessa divindade “Exú”, sendo sua figura associada ao Satanás, ao Demônio, ao Diabo, ao maligno, destrutivo e nocivo. Mas na verdade Exú é um elemento neutro no sentido de que ele não é bom nem ruim, ele é simplesmente o mediador entre todas as entidades e forças do bem e do mal. Nos sistemas africanos, portanto afrodescendente, não existe relação de dicotomia, sendo essa forma de construção, uma perspectiva judaico-cristã. 

 

Mas eis que a roda gira, e Exú fascina, e como fascina aqueles que se conectam com sua força. Seduziu e ainda seduz diversos artistas e suas produções no curso da arte brasileira, e muitos acabaram por retratar Exu em suas esculturas, gravuras, fotografias, pinturas e instalações. Antonio Dias retrata o símbolo de Exú em Caricatura (1961), Gigante Dormindo e Cachorro Latindo (2002/2004), Seu Marido (2002). Mario Cravo Jr., Cravo Neto, por sua vez, relacionam-se com a divindade durante todas as suas produções, Cravo Jr. em 2011 publica Exu Iluminado, livro dedicado à sua vida e obra. Rubem Valentim, Mestre Didi, Carybé, Ayrson Heráclito, Caetano Dias, J. Cunha, Pierre Verger, Tati Moreno, Alberto Pitta, Vik Muniz, Emanoel Araújo, Anderson Cunha, Abdias Nascimento, Nádia Taquary, Djanira da Motta e Silva, Maria Auxiliadora, Rebeca Carapiá. Difícil é encontrar um nome na arte brasileira que em alguma encruzilhada de suas produções não tenha saudado Exú.  

 

Porém, nos últimos anos, o artista plástico que mais chama a minha atenção, tamanha a intensidade de sua relação com Exú, é Jaime Fygura, andarilho das ruas de Salvador desde os anos 1990. Questiono se Jaime não seria o próprio Exú na terra. Vida, obra, corpo e divindade se fundem em uma única persona, o corpo que vive o drama da vida e das contradições diárias, a nudez e suas vestes, do conflito entre as necessidades, prazeres corpóreos e as exigências da alma. 

 

Jaime Andrade de Almeida é seu nome de batismo, nasceu em 1951, é um cidadão comum, declara ter muitos filhos. Opta por ter cuidado com seus familiares e prefere não envolvê-los em sua produção artística. Seu processo de mutação começa após o confisco da caderneta de poupança durante o plano Collor. Aquela altura Jaime tinha seu próprio carro, só andava com roupas e sapatos de grife, e atuava como artista em algumas gráficas da cidade. 

 

“Até que chegou um político corrupto com seu plano econômico que fudeu com minha vida. Foi aí que eu me retei rasguei paletós calças e a população começou a me apedrejar me chamando de maluco. Depois de anos de pedradas, fui obrigado a trocar as roupas rasgadas por roupas blindadas”. 

 

As fronteiras entre arte e vida são muito tênues e suas indumentárias se tornaram eixo central em sua obra. O figurino de Jaime é carregado de conceito e estética própria, com o artista deixando de ser um personagem e passa ser a própria obra. Muitas de esculturas-objetos são fragmentos de suas vestes: cabeças, torços, pernas e falos. 

 

“Foi o único lugar que eu deixei em aberto para, também, o povo saber que eu era macho… O importante é saber que é Jaime Fygura, entendeu? Um ser do sexo masculino.”

 

Seu repertório, escultórico e performático são uma saudação a Exú. Desde a escolha dos materiais, ferro, couro, cobre e materiais orgânicos, Fygura não utiliza nada sintético, e o seu campo de atuação, seu principal palco, são as ruas, avenidas e encruzilhadas da cidade. Muitas de suas obras levam como título “Exú”, o que demonstra uma associação e interação direta e intencional do artista com a divindade. Outro ponto de intercessão são os objetos fálicos produzidos por ele e a importância de Jaime Fygura ser identificado como um ser macho, assim como Exú que carrega seu ogó, instrumento de formato fálico que fazem referência à anatomia do pênis e simboliza seu poder concentrador e semeador. 

 

Nos últimos seis anos, eu tive o privilégio de conviver com Fygura e com Jaime. Na minha presença ele tira a máscara e podemos conversar olhos nos olhos semanalmente, a Paulo Darzé Galeria se tornou um de seus roteiros. Ao adentrar o espaço com sua indumentária, certa tensão é gerada no ambiente, mas logo em seguida uma voz doce e um ser humano educado se revelam por debaixo de sua armadura, costuma me chamar carinhosamente de Minha Rainha das Artes. Segundo o próprio artista, existe uma ligação espiritual entre Jaime e Fygura, “Eu dependo dele e ele depende de mim… Eu não sou um homem mau, mas tenho o mal dentro de mim”. Assim, mais uma vez, podemos perceber como a cosmovisão afro-brasileira faz parte do imaginário do artista, que é capaz de compreender o mundo e sua dualidade, a ambivalência da vida em que nada é bom nem ruim, tudo é bom e ruim ao mesmo tempo, e como as dimensões do eu são interdependentes.  

 

Na cosmologia africana, a existência pode ser compreendida através de dois níveis de mundo e de universo. O mundo humano, materializado, sentido, concreto e tocável, onde a natureza e os seres são produzidos e fiscalizados. E o universo intocável, ilimitado, transcendente. Estes dois níveis se complementam, e juntos, produzem a harmonia necessária ao ato de existir. Porém é preciso compreender que esses mundos não são isolados, eles se entrecruzam a todo tempo, e isso implica numa visão cooperativa entre essas dimensões. No contexto religioso e de comunicação com o sagrado é, através do sacrifício, que se compartilha com o mundo das energias e da natureza o estado de vida existente nesse mundo. Na obra de Jaime Fygura, o artista oferece o seu próprio corpo, a carne como sacrifício, reproduzindo assim, a simbologia de cooperação entre os mundos distintos, mas compartilhados. 

 

“Comecei a sacrificar meu corpo pela minha arte… O trabalho em si é mais dado como um sacrifício, entende? Eu uso os objetos de arte sobre o meu corpo como um sacrifício. Eu uso com respeito, com doutrina … É algo espiritual, não é carnal.”

 

Afinal, Jaime depende de Fygura. 

E Fygura depende de Jaime. 

 

 

Thais Darzé [Salvador, Bahia] é curadora independente, diretora da Paulo Darzé Galeria e pesquisadora de Arte Afro-brasileira.

 

 

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