SILÊNCIOS CRUZADOS

1 · a casa

             Era agosto. 

             Um agosto sossegado.

             Ainda nas frestas do escuro acorda intermitentes instantes. 

             Cutuca acasos 

             Diz: 

             Bom dia. 

             A não ser que já tenha outros planos para hoje. 

             Logo depois: 

             Não me peça a verdade. 

             Não estou com ela. 

             Não sei onde a deixei. 

             Logo que encontrá-la, aviso. 

             Era uma manhã bem cedo. 

             Veste-se. 

             Estendendo a mão, o amor.

             Sempre o amor. 

             Exige futuro. 

             Sai sem passar a chave             

             O dia passa.

             Noite de lua nova.

             Chega ao quarto. 

             Diante retira a palavra de um embrulho. 

             Desfaz o nó. 

             Faz saltar num mergulho (desvario?).

             Poderia chamar violência sutil.

             Ou tudo o seu contrário. 

             O que era noite se torna nove horas.

 

              Sobre o chão branco da sala de jantar ficam expostas vísceras. Espalhados braços pernas ossos. Restos de pele. Corações na boca. Na leitura de jornal, dia seguinte, dentro da notícia, quando alguém ler, não dá para saber amor tédio vingança navalha exercício só para renascer. Diante da notícia, o que há para ver? O de sempre. Palavras e palavras e palavras. Todas com numeração jurídica. Emoção de balcão. Reclame. Coleção de melancolias. Lembranças. Também alguns sentimentos.

 

              Sobre a cômoda ainda se deixam ver de corpo inteiro num porta-retratos.

             Atravessa pequeno corredor. 

             Atrás de uma porta fechada, papéis livros discos caixas de cartas e de fotos. Paixões que viraram amores. Abre para buscar memórias. Onde elas se guardam. Para pegar a palavra ausência. 

            Talvez Deus ou algo que o valha esteja querendo dizer algo. 

            Por uma circunstância. 

            Oportunidade de ocasião. 

            Aprende-se: 

             Não se pode jamais, na vida, esquecer em levar um olhar para cada dia e talvez, talvez, talvez.

            Passa uma roda do relógio.

            Está na convenção do condomínio. 

            Não é preciso mais nenhum aviso. 

            Acordado o silêncio.

            Este apartamento em comum.

            Sala dois quartos dependências completa.

            Um diariamente junto. 

            O cotidiano. 

             Amassado os papéis, o ponto de vista cria o objeto, o tempo altera todas as coisas, melancolia do fim não morre. 

           Ninguém abandona ninguém. 

           Naturalmente se sai pela porta. 

           Da frente (a da entrada). 

           Sai.

           Duas voltas. 

           A chave jogada por baixo da porta.

 

2 · o mar

         Manhã no novo mês.

              Perto / dentro/ o mar / após aquela noite do fim de agosto/ após cigarro vinho verdade / após a despedida / sem saudades / não se deseja mais no perigo das  mulheres sem graça  mulheres sem dengo mulheres rudes mulheres sem brilho / olhos das abóboras nas carruagens da paixão / sacrifício de simulações / não mais se permite perder / exagerada que é / a felina ternura da delicadeza da dor do amargo do oculto que acolhe nutre prepara o colo, solta de dentro o infinito.

               Jamais me amei tanto / o mar / o mar que eu olho olha também para mim / não serei navio ancorado na areia escorrendo pelos dedos / eu sou este alguém que guarda uma cópia do mail diante do mar / o que passa / o que fica / não pelo adeus / alheamento / e seu modo de usar / dias a caírem num bueiro / às minhas costas / o lado do asfalto / buzinas velozes exercitam o poder / dobras e curvas / o que em si é naturalmente vertical / (ou seria horizontal?) / diante o mar, o sem fim.

 

             Setembro

             Manhã.

             O mar de Amaralina.

             Ondas / espumas. 

             Não esquecer a brisa / o sal / os pés na areia.

             Pega o olhar / amassa o olhar / arranca a cabeça / separa o corpo.

             Fotografa a linha. 

             Uma linha para se ler horizonte. 

              

              Não amo o amor / a m o / a m a r

            

                Diante do mar / o mar de Amaralina / manhã de setembro / avistando as ondas no mar / olha as pedras / as pedras e o mar que as cercam / as pedras e o mar estão onde sempre estiveram / nunca saíram deste lugar / nunca saíram / nunca / o mar que margeia está onde sempre esteve /  mar que a leva / mesmo mar que a devolve / mergulha para nadar nua onde se faz ave ou peixe / corpo com cabeça peito rabo / neste devir se torna o mar e o mar a possui viva. Bem vida. Uma vez mais se ouve o canto suave das águas. É quando alguém mergulha bem longe das margens. 

 

3 · a rua

                O que mais pode assustar? 

                Algum tempo depois. 

                Retira a pedra, contém o abismo; retira o medo, contém o erro. Não é a geografia a história ou a poesia o cotidiano o prazer o desejo que torna o perto distante, íntimos em estranhos. Palavras perdem sentido. 

                  Hoje, na faixa para pedestres, atravessamos silêncios cruzados.

 

Claudius Portugal [Salvador, Bahia] Poeta, curador e editor da Revista Exu [1987-1997]. Foi diretor da Fundação Pedro Calmon e da Fundação Casa de Jorge Amado. É autor de diversos livros de poesia e Arte, entre os quais Margensàmargem [2018], Fluxo [2016] e Paredes planas [2012].

 

 

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