LITERATURA EM SOLO SAGRADO

Foto: Mario Cravo Neto

 

Falar a respeito da prática literária nos terreiros é um assunto inesgotável levando em consideração que se trata de um lugar político, de luta pelo direito a sua própria identidade cultural, além de ampliar a resistência dos seus espaços sociais com a continuidade do seu referencial histórico simbólico.

 

Os terreiros são espaços acolhedores de cura, de convívio entre os diferentes. Seus princípios não se afastam da perspectiva da ancestralidade africana. É lá que tudo acontece, onde reterritorializamos a cultura tradicional: os símbolos, as lideranças religiosas, os saberes dos mestres e os griôs, os animais, as folhas, os objetos, as danças com seus ritmos e ritos, os cânticos, a escrita com suas oralituras pautadas a partir do aprender fazendo, tudo isso forma uma única energia no campo da multidisciplinaridade. 

 

O terreiro tem disso: a troca entre pessoas, entre fatos que são descritos e os que são vividos além de uma formação letrada. Sem dúvida, a oralidade tem lugar de destaque nos territórios sagrados, contudo não podemos ignorar o poder epistemológico das escritas muitas vezes utilizadas e revisitadas pelas lideranças religiosas em seus cadernos de anotações denominados de Akosilé. Ali anota-se tudo que se vive: oriki, adurá, asiri, awon orukó, itan, odus (cânticos sagrados, segredo, rezas, títulos, identidade ancestral, histórias, destinos) e tantas outros elementos que são conferidos diante da visão cosmológica que partem da perspectiva da existência da relação comunitária, muitas vezes trazida no processo de iniciação, e descritas nas trajetórias evolutivas de uma noviça. 

 

A maioria dessas anotações foi utilizada como elementos inspiradores de ilustres autores(as) nas grandes construções literárias: o nosso saudoso Mestre Didi e sua esposa Juana Elbien dos Santos, o estimado professor Julio Braga, Pierre Verger, Makota Valdina, a estimada Mãe Stela de Oxóssi que chegou a ocupar a cadeira 33 da Academia de Letras do Estado da Bahia. Até hoje, podemos constatar essas práticas, que às vezes são usadas de formas indevidas. Quando do falecimento de uma liderança religiosa, esses cadernos caem em mãos inapropriadas, gerando desconforto entre seus seguidores.  

 

Os pensamentos, idéias, modos de fazer e saber não se anulam. São métodos educativos que demonstram aos indivíduos o seu lugar de fala no mundo com suas potencialidades e especificidades de gênero, de cor, de classes sociais diferentes, de raça e faixa etária; um paradigma civilizatório em que todos são acolhidos em sua dinâmica inter-relacional. Trazemos conosco marcas indeléveis de outras existências ancestrais, mas o que nos preocupa é o tratamento pedagógico e literário que estamos proporcionando a essas memórias que não poderão ser extinguidas ou silenciadas. 

 

Neste contexto, cito a importância de mantermos vivas a nossa memória por meio dos nossos mestres de tradição oral, nossos mestres griôs, como forma de garantir a transmissão dos saberes e fazeres para promover o fortalecimento da identidade e ancestralidade do povo brasileiro. Muitas dessas lideranças morrem na invisibilidade e temos no Griô, um guardião da memória histórica ancestral de um povo e seus ensinamentos, a única forma de perpetuar as nossas histórias. 

 

Acredito que através dos nossos mestres com seus conjuntos de práticas e valores possibilitaremos a reconstrução de uma relação dinâmica num mecanismo importante de aprendizados no Asè. 

 

Eliana Falayó [Itaparica, Bahia] Graduada em Letras Vernáculas e especializada em Psicopedagogia Institucional, é professora e coordenadora pedagógica do Ilé Asé Okun Nilé Ayó e do Ilé Omo Agboulá.

 

 

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