UMA CIDADE-PASSAGEM QUE EXALA O SAGRADO

Foto: Tom Correia

 

Na teoria da minha profissão há um debate sobre a união ou separação entre o jornalismo e a literatura como centro do discurso da objetividade. Por gostar dos dois gêneros, geralmente, encontro literatura em alguns textos jornalísticos e vice-versa. Mas esse quase nariz de cera – um pecado para o jornalismo – tenta justificar a referência a uma comemoração que já passou: o aniversário de Salvador, celebrado em 29 de março. E, para convencer de vez o editor dessa revista, conclamo o patrono da publicação, que tem poderes de fazer com o tempo o que desejar: trazê-lo de trás pra frente, de frente pra trás ou deixá-lo no meio do caminho. E eis que ganhei coragem para seguir o fio que imaginei. Licença, editor.  

A fundação de Salvador foi determinada pelo rei João III como providências para tomar posse com mais vigor do território que a Coroa Portuguesa passou a considerar como seu a partir de 1500. Frequentemente encaramos a fundação de Salvador como algo corriqueiro, mas construir uma cidade para ser uma capital – ícone da representação de poder – foi sempre tarefa complexa. Não é a vila que vai crescendo até virar cidade, mas um empreendimento e tanto. Se Brasília deu trabalho a Oscar Niemeyer em 1960 e, por isso, celebramos a sua genialidade, imaginemos o que foi erguer Salvador no século XVI.  (E  nem estou colocando nesta conta o custo da tragédia que se abateu sobre os verdadeiros donos da terra: os grupos indígenas que até hoje estão aí, por várias partes do Brasil, como se suspensos no tempo dizendo que têm o direito de permanecer no que é deles, enquanto os herdeiros daquele estado estrangeiro continuam massacrando esses povos originários só para o nosso conforto: desmatamento para criar gado e soja; construção de hidrelétrica para garantir nossas tecnologias de comunicação e informação porque estamos falando em 5G, mas a matriz ainda é a elétrica com características de geração quase nunca limpa, em vários sentidos). 

Mas voltemos ao ponto em que encontramos Tomé de Souza com o regimento real debaixo de um braço e uma espada na outra para cumprir a determinação de sua majestade, João III, que inventou de construir uma cidade para dar jeito na questão que atormentava a Coroa Lusitana há quase meio século. A Coroa já tinha experimentado alguns modelos que não funcionaram muito bem. Alguns dos reis de Portugal foram chegados a ideias mirabolantes. Dom Sebastião, por exemplo, se meteu a ir virar herói de cruzadas. Mas aí se perdeu na Batalha de Alcácer-Quibir e, nunca mais se soube dele fora da condição de uma espécie de messias que voltaria para devolver glória a Portugal. Como o povo brasileiro é generoso, deu um novo destino à saga desse pobre rei. Por aqui ele virou encantado pelas artes das devoções mágicas e intricadas do catolicismo popular. Em Canudos, ganhou até as bênçãos do Bom Jesus de Antônio Conselheiro. Já Dom João VI transladou uma estrutura oficial todinha da capital do reino, Lisboa, para a então colônia, em 1808. Isso pelo mar e por tabela cozinhou em banho-maria as duas geopotências da época (Inglaterra e França) livrando-se das pressões em dose dupla. Ou seja: se olharmos para essas histórias podemos pensar que mexer com essas terras bota tudo do avesso. Magia é isso, suas majestades.

Em 1549, proclamado governador-geral, Tomé de Souza ergueu oficialmente a Soteropólis, também chamada de Cidade da Baía. Adoro essa última denominação porque mostra quão privilegiada é esta cidade, escolhida para ser entreposto e, portanto, elo, nas andanças de Portugal por suas possessões nos cantos do mundo então conhecido. Na América, os portugueses só pegaram uma, mas logo a de dimensões continentais, ora pois. Se para celebrar feitos portugueses como esse, Camões fez com Os Lusíadas a sua versão da Ilíada, nós, baianos, filhos legítimos ou adotivos dessa Cidade da Baía podemos escolher tantas e tantas odes para celebrar a nossa terra e com recursos muito próprios. Nem é preciso imitar os moldes dos colonizadores, como ocorreu na saga do casal Catarina Paraguaçu e Caramuru. Quem conhece determinados trechos da história de Pocahontas fica com a certeza de que a semelhança entre John Smith e Caramuru não pode ser apenas mera coincidência. Isso só reforça como as narrativas no campo do simbólico com criatividade são para quem sabe. E não tem exigência de antiguidade: é contemporâneo, é barroco, é modernista, antropofagista ou tudo junto e misturado. 

 

Vários milagres de um povo

Caetano já mandou o aviso de que nem ateu aguenta esse baque de renunciar totalmente à magia, porque afinal de contas quem transita pelas ruas da Bahia vai presenciar milagres aos montes: Sabe que os deuses sem Deus/Não cessam de brotar, nem cansam de esperar/E o coração que é soberano e que é senhor/Não cabe na escravidão, não cabe no seu não/Não cabe em si de tanto sim.

De alguma forma é uma convergência a Jorge Amado que, olha só, cantou, em Bahia de Todos os Santos – Guia de ruas e mistérios, a bola de quem era o dono do chão dessa cidade fervilhando poder e potência de interligação entre tantos mundos: Nzila, Elegbara, Exu que traça caminhos para além da terra, afinal eles nunca têm um fim e um começo se a gente observa bem. Depende da perspectiva.    

E, possivelmente, o senhor das comunicações entre tantos mundos, usando o nome que mais lhe agradou no momento, gargalhou, gargalhou e gargalhou mais ainda, dessa vez terminando cantarolando: águas, águas e águas. Partiu para fazer mais uma ligação. A cidade que nasceria como centro de governo precisava de mãos e cabeça femininas. 

Antes de prosseguir na saga sobre a fundação da Cidade da Baía, vamos ter que fazer uma pausa em um ensinamento que pertence à cosmogenia dos povos chamados nagôs. No início dos tempos, após a criação do mundo e dos seres que passam a nele habitar, formou-se um conselho de governo. Mas quem passou a integrá-lo foram apenas os deuses. As iabás (o sagrado em forma feminina) não foram convidadas, mas se tivessem prestado atenção, os aborós (divindades que assumem o gênero masculino) teriam visto um arquear discreto de sobrancelha da Senhora das Águas Doces, Oxum. 

Passam-se dias, meses e anos desse governo totalmente masculino. E tudo começa a dar para trás: a vida não se manifesta em sua plenitude. As flores são as primeiras a desaparecer; as árvores frutíferas não conseguem chegar ao estágio de renovar as folhas. Até os nascimentos e, consequentemente a renovação da humanidade, cessaram de ocorrer. Ficou tudo seco, feio, sem brisa ou água correndo. 

Desesperados, os deuses do conselho foram até o pai de todos, Olorum, que observa tudo da distância da sua transcendência como regente de algo mais complexo que é o universo. E antes que o debate se prolongasse ele fez apenas uma pergunta: 

“Oxum está nesse conselho?”

Epifania. Problema, enfim, revelado. Oxum recebeu o convite para integrar o conselho, que também lhe pediu desculpas. Primeiro, a deusa resolveu dar um tempo para que os seus irmãos sentissem o que fizeram e que entendessem que não há sociedade sem participação de toda a sua diversidade. 

Que história e que lição! Ela ensina sobre governo, cidadania, divisão de habilidades e consequências da exclusão e muito mais que podemos extrair dessas filosofias altamente qualificadas e sedimentadas na narrativa da voz, a oralitura. Esse recurso permite deixar tudo ainda mais belo com um som ou sorriso de quem sabe contar histórias, como faz Nanci de Souza Silva, mais conhecida como Ebomi Cici de Oxalá, uma griot que temos a alegria de ver atuar em plenitude.   

 

Filhas e filhos das águas

A senhora das águas e dos governos compreendeu o destino daquela cidade escolhida para ser entreposto por meio das artes de visualizar o que está para acontecer, e que domina bem. Até então, aquele território vibrava nas redes do canto de outra encantada e celebrada pelos povos que chamavam a baía de Kirimurê. Não tardou para ser forjada a aliança entre as forças de nomes diversos, mas conectadas em um mesmo ethos: Janaína, Mãe D´Água, Oxum, Dandalunda, Kayala e Iemanjá. 

E o Senhor dos Caminhos gargalhou de novo. Como havia pensado antes que o pensamento ganhasse forma, sua Cidade da Baía ia ficar cada vez mais potente. Para expor seu plano nem precisou dizer muito, pois Oxum arqueou a sobrancelha em entendimento absoluto e “aceite”. Ela seria a mãe dos filhos da cidade nascida com vocação de abrir as portas para o vai e vem pelos caminhos de tantas potencialidades. 

Esse acordo entre deusa e deus chegou aos ouvidos, pensamento e coração de outro bardo, cantador, poeta arteiro e versado em entender, mas não contar tudo sobre o mistério; apenas o que é preciso saber para sentir. E foi então que Gerônimo compôs É d´Oxum e se juntou a Caetano na trilha sonora de Tendas dos Milagres, na versão para a TV do texto produzido pelo outro aprendiz de feiticeiro: Jorge Amado.  

Nessa cidade todo mundo é de Oxum/homem, menina/mulher/Essa cidade irradia magia… No seu canto-poesia, Gerônimo diz muito sem precisar entrar no campo do segredo, porque artista não precisa comunicar fundamento. Não há necessidade de racionalizar. Só dar corda para a roda girar.  

Como dizia Jaime Sodré, o professor-potência, o que Gerônimo fez foi um oriki. Este canto versa sobre as alianças mágicas traçadas nas águas receptoras de mistérios não à toa chamada, em português, de Todos-os-Santos. Os lusitanos pensavam estar no controle, mas os povos donos da terra se aliaram aos recém-chegados de forma compulsória. Estes grupos e mais dos que viriam depois, forjaram uma aliança que só deu maior peso a essa consagração da baía, e por extensão à cidade que se abriga às suas margens, a todos os sagrados possíveis. 

Tomé de Souza não viu e nem ouviu, mesmo porque esse tipo de encantamento não chega para quem só pensa no poder para dominar e causar dor. Já a Cidade da Baía não escuto a toada do colonizador.  Fingiu que entendeu, mas não se dobrou. Aceitou o título de Cidade-Passagem, valiosíssimo, mas em outros sentidos, ora, ora. Tanto que Tomé não aguentou. Partiu depois de muito pedir a seu rei, João III, que usou um tempo que pode ser definido como uma pirraça para autorizar o retorno do seu servo. Tomé não entendeu a cidade que fundou porque não tinha recursos para pisar no terreno das artes poderosas que dobram reis sem fazer alarde. Já o povo da Cidade da Baía, esse foi ficando cada vez mais escolado, preparando um levante aqui e outro ali. Não deu sossego a poderosos variados, inclusive os “da terra”. E isso tudo, ao que parece, assoviando: ”Não mexe comigo que eu não ando só…”   

A Cidade da Baía só festeja espada se for a vinda de Nkossi ou Ogum, essas realmente capazes de defender um povo que teve a força de convocá-los para deixar suas terras de origem e continuar por aqui para protegê-lo. É necessário muito amor entre mulheres, homens e os divinos para se operar uma saga com essas proporções. Por isso sobra beleza em profusão para quem se dispõe a traduzi-la nas mais variadas linguagens. E disso vem mais uma certeza: quem não se rende a uma cidade dessas não tem preparo para entender os milagres de fé. 

Saudações mais uma vez, mestre Caetano.  

 

Cleidiana Ramos é jornalista e doutora em Antropologia

 

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