O PRIMEIRO ENTARDECER

Foto: Hirosuke Kitamura [OSKE]

para Juliana Braga

 

Cresci com um pendor para a penumbra, para me esgueirar pelos cantos. Uma discrição que beirava a ausência. Preferia o cercadinho da minha casa à convivência com os outros meninos. Ocupava o tempo lendo o que me caía nas mãos. Alguns quadrinhos, revistas de fofoca, enciclopédia Barsa. Eu havia adquirido uma ilustração genérica e um conhecimento apenas superficial, até entrar para a faculdade. Eu ainda ignorava as profundidades.

 

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Barba disforme e camisa aberta. Aspecto de perene enfado. Indivíduo culto, entediado com as demandas de sobrevivência, até que é comum. Como se o cuidado com a aparência e o desvelo intelectual fossem concorrentes. E inconciliáveis. Seu estilo remetia aos botecos de esquina, borracharias. Ou a qualquer outro ambiente de macheza em estado bruto. Quando abriu a boca, estremeci na cadeira. Oratória persuasiva, instigante. Uma gravidade ponderada e imponente. Até os mais insolentes ficaram intimidados. Em tom monocórdico, explicou o conteúdo da disciplina e as formas de avaliação. Até então, para mim, Filosofia não passava de uma matéria ornamental. Obrigatória, porém dispensável para o exercício do jornalismo.

 

Aquela voz cavernosa, curada – depois fui saber – no uísque e no cigarro, reverberava em minha cabeça. Por timidez, alguns professores buscam um ponto imaginário no fundo da sala. Eu preferia acreditar que ele olhava para mim. E a turma, testemunha daquela aula particular.

 

Um dia, tomei coragem e o indaguei sobre essa visão negativa do mundo que aqueles filósofos todos pareciam querer nos incutir. Ele pôs a mão nas minhas costas, e disse, com fumacento hálito de Hollywood: “não leve tão a sério”. Boa forma de amenizar o estrago que vinha fazendo. Se a vida é um sofrimento sem trégua, o suicídio é a única saída viável? Eu ficava bolando perguntas capciosas apenas para lhe chamar a atenção. Mas nem sempre tinha a ousadia de fazê-las.

 

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Um colega engajado me convidava para umas reuniões políticas num barzinho do Campo Grande. Certa feita, me arrastou para uma passeata. Ao dobrarmos o Forte de São Pedro, senti um braço me envolvendo o pescoço. Tentei disfarçar, temia que me considerassem um alienado. Desci a Avenida Sete quase alheio aos manifestantes. O tédio, sobre meus ombros, aumentava de peso a cada passada. A turba que clamava por Diretas Já virou no Sulacap e pegou a Carlos Gomes. Segui em frente. Sentados sob a sombra da estátua, mendigos repetiam o gesto do poeta. Subi a rua Chile. Aquela modorra, aos poucos, foi se desfazendo. Largo do Pelourinho. Turistas sorridentes, meninos descamisados. Rua Direita do Santo Antônio, um samba em harmonia com o toque do berimbau. Enfim, o tédio se soltou de mim e desceu a Ladeira da Água Brusca.  Alguém me disse que às vezes o via na estação da Calçada, aguardando o trem. Ao lado de gente que não protestava, não tinha tempo para isso. Lembrei da aula de Filosofia no dia seguinte. O único brado que retumbava em meu peito juvenil.

 

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Ausente de todas as outras matérias, fui alertado pelo coordenador para os riscos de reprovação e jubilamento. Lancei uma frase do Kraus: “os alunos comem o que os professores digerem”. E segui, deixando-o com uma interrogativa cara de cu.

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Eu esquadrinhava os adágios de Erasmo de Rotterdam, porque o professor o mencionara, quando senti alguém pousar a mão no meu ombro e apertar com cuidado. O livro escancarado sobre a mesa. Ele disse apenas “muito bem”, e dirigiu-se ao setor de devolução. Na volta, puxou a cadeira e me perguntou se eu havia conseguido encontrar o que buscava. A bibliotecária pediu silêncio. Sugeri que fôssemos para a cantina, mas fui surpreendido com uma oferta de carona. “Quem não tem destino aproveita o caminho”. Ele adorava soltar frases com sentido nebuloso. Quando eu ia descer do carro, ele me segurou pelo braço. Gelei. Perguntou se eu não queria dar uma chegada em Arembepe, “num fim de semana desses”. Procurei voz e não encontrei. Confirmei, meneando a cabeça. Entrei em casa flutuando. Minha mãe me puxou pelos pés e me trouxe de volta para o chão. Ameaçou me internar, caso eu continuasse com mania de levitação.

 

Somente no final do semestre, quando o tempo instável de junho contraindica qualquer evento praiano, ele resolveu marcar o bendito passeio. Pouco depois das nove, ele apareceu, dando duas breves buzinadas. Ao cruzar o portão, minha alegria se esvaiu: uma mulher ocupava o banco do carona. No banco de trás ainda havia duas crianças. Era um programa de família. Nem nos meus mais cáusticos acessos de pessimismo eu poderia aventar uma hipótese daquela. Passei a viagem num estado de quase catatonia. Ao chegarmos à praia, me senti um joão-bobo murcho. A nuvem cinzenta sobre o piquenique da família feliz. 

 

Tarde avançada. O professor me chamou para dar uma volta. Atravessamos as dunas que escondem a aldeia dos hippies. Grupos de cabeludos compartilhavam baseados e despiam-se de suas sebosas vestes. Caminhamos até uma lagoa mais deserta. Sem a menor cerimônia, ele tirou a sunga e se jogou na água. Imerso até a cintura, perguntou se eu ia ficar só olhando. Respirei fundo e desci o short. Procurei deixar, também, meus temores pelo chão.

 

Mergulhei, e continuei embaixo d’água até encontrar suas pernas. Duas colunas que escalei, vagarosamente. Atravessei a floresta de pêlos. Trilhei o relevo da barriga. Ele me puxou pelos cabelos. Não tive coragem de abrir os olhos, apenas senti o gosto amargo de nicotina me invadindo a boca. Mergulhei, e decidi ficar submerso até quase perder o fôlego. Ao retornar à superfície, havia anoitecido. Ninguém mais me fazia companhia, apenas a sinfonia dos grilos e o coaxar dos sapos. Mergulhei. Optei por mergulhos curtos. Me aproximando lentamente, qual um golfinho. A cada subida, a lagoa crescia. O professor era uma imagem fugidia, distante. Eu nadava, nadava, e ele cada vez mais longe aparecia. Mergulhei. E ao voltar à tona, percebi que o professor havia saído. Me observava, sentado numa pedra. Sorrindo, como se debochasse da minha agonia.

 

Mergulhei tantas vezes, que já não distinguia mais se ainda mergulhava ou apenas me recordava do mergulho anterior. Ou ainda projetava novas engolfadas. Meu corpo franzino acusou o cansaço. Tantas braçadas e mergulhos. Subidas e descidas. Idas e vindas. Respiração suspensa. Apneia. Corpos liquefeitos. Dois rios que confluíam e corriam para o mar. A água salgada cicatrizando as feridas. Os mistérios das profundezas abissais. Um mergulho sem volta.  

 

Os meninos desmaiados ao meu lado. A mulher, emburrada. Ele colocou uma fita do Djavan, para fazer média com a patroa. Às vezes me olhava pelo retrovisor, mas eu desviava. Ainda na praia, me revelou que fora contemplado com uma bolsa de doutorado na Alemanha. Viajaria em duas semanas.

 

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Dias depois do passeio, encontrei um disco do Caetano sobre a minha cama. Minha mãe falou que um rapaz o havia deixado com a vizinha. A capa trazia um carimbo: INVENDÁVEL – AMOSTRA GRÁTIS TRIBUTADA. Na contracapa, uma seta feita à caneta apontava para a segunda música do lado A. Era um recado, presumi. Aquela música trazia alguma mensagem subliminar, um bilhete que ele não quis escrever. Arrastei o aparelho de som para o quarto, em respeito ao horário da novela. Dias Gomes e Janete Clair eram santos que minha mãe cultuava com fervor. Ouvi várias vezes aquela canção. Cada vez, uma interpretação diferente, uma nova descoberta. O contrabaixo pulsante embalava minhas divagações. Nem sei dizer as outras músicas que compõem o bolachão. Eu só colocava o lado A, deslizando a agulha diretamente para a segunda faixa. 

 

***

 

Meses mais tarde, um colega de curso, cujo pai era radialista, me contaria que as gravadoras enviavam os discos com aquela seta para indicar a faixa que deveria ser executada. A chamada “música de trabalho”, que visa entrar na programação a fim de tornar-se um hit. Lembrou, inclusive, que deixara um LP Cores Nomes com a vizinha, de brinde para mim.

 

“Ela não entregou pra você?”

 

 

Marcus Borgón publicou textos em jornais, sites especializados em literatura, e coletâneas de contos. É autor da novela O pênalti perdido [P55 edições, 2016]. Pratica auto-exorcismo durante os jogos da Ponte Preta. Aprecia os avanços da ciência em busca da expansão da consciência.

 

 

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