O MEL DO MUNDO

Foto: Hirosuke Kitamura [OSKE]

Por cima da feira, as nuvens
Atrás da feira, a cidade
Na frente da feira o mar

Gilberto Gil

 

Piloto trabalhava de carregador quando soube que havia vaga na Espada de Ogum. Nada mal trocar carrinho de mão e peito nu por camisa de botão e salário de vendedor. João Baobá, compadre de Tia Miúda, ficou de fazer a viração. Só faltava fé. Sem nunca ter tocado nota de cem, vivia do troco das compras das freguesas. Entre barracas de toda coisa, aprendera que nem tudo tem seu preço. Pouco doía a memória dos dias de fome. Da infância, só lhe vinha o mimo das vendeiras, desde que chegara com a mãe em São Joaquim.

Ajeitaram-se de primeira numa banca de caixotes, sob as bênçãos de Tia Miúda. Em poucos dias, a energia do menino já explodia em mergulhos nas águas da Baía de Todos-os-Santos. O mar se erguia ali feito milagre. No Boteco de Valda, na pequena orla alheia ao trânsito, era regra conferir se os moleques estavam todos almoçados. Nunca mais faltou comida e tudo parecia cair do céu. Peixe, fruta, feijão de caldo, até suco de caixa para dividir por três. Com o tempo, a mãe passou a fazer esculturas, orixás, santos e pretos velhos, vendidas no Palácio de Oxóssi. Piloto sentia que era hora de ir também para uma loja. 

A Espada de Ogum pertencia a um português falador apelidado Bololó, conhecedor das folhas. Alguns até diziam ser estudado, doutor em botânica. Não seria tonto de recusar um pedido do feirante mais antigo. E foi assim que Piloto descansou pela primeira vez os braços sobre um balcão. Entre as paredes da loja, de onde avistava a rua que ia dar no ferry, sentia-se importante de crachá: José Cândido. O problema é que não sabia ler. De alho a rosas, guiava-se pelo instinto em um universo iletrado que resistia a desaparecer frente àquele outro, no qual Bololó consultava livros sobre a origem das espécies. 

“É fácil, caso não localize nas páginas, basta jogar no Google.” 

Cândido olhava o compêndio de botânica, e a máquina sobre o balcão, sem se sentir no direito de aprender. Nunca estivera próximo de um computador, assim de usar, de ter um seu, de se permitir navegar ou mesmo tentar entender como se dava aquela navegação. Não saber ler nem era um drama. O mundo lhe chegava pelas coisas. No que intuía, conformado, ser aquela outra forma de leitura. Pois um peixe é um peixe, estando morto ou vivo, e não precisa ser lido ou escrito para que se saiba se está podre ou se tem escamas. Do mesmo modo, imaginou lidar com as folhas. 

Dias a fio, dedicou-se a associar cada espécie às suas forças, sentindo a textura entre os dedos, levando ao nariz os maços. Quando desafiado a entender, arrancava um naco e punha na boca, identificando na língua o que era insosso, azedo, amargo. Por dois meses, deu certo. Atendeu fregueses muito falantes. Alguns chegavam já anunciando a encomenda e não faziam cerimônia quanto a procurar o que queriam por si mesmos nas prateleiras de folhas. 

Até o dia em que a moça ruiva passou pelo passeio e ficou parada, olhando para dentro através do vidro fosco. Era uma tarde de sábado, estava sozinho na loja. Torceu para que seguisse o rumo do Palácio de Oxóssi, logo ao lado. Mas, após três voltas hesitantes, ela entrou e colocou uma lista indecifrável em suas mãos. Enquanto olhava os itens desenhados em letra de forma, a menina ensaiou uma conversa aleatória, dessas que se tem com os feirantes. Cândido virou a cara, tentando parecer grosseiro. Talvez a reação a expulsasse. Mas logo viu que não desistiria fácil. Reparou que tinha os olhos vermelhos, como se tivesse chorado toda a noite, como se estivesse chorando naquele momento.

“Estou com pressa, moço”, falou baixinho. 

Seguia paralisado diante dela, certo de que não caberia em nenhum mundo que não fosse o de antes. Falava com gente de outros lugares, inventava sotaques, zombava ao vê-los encantados com as pimentas nos cestos, contritos diante dos pretos velhos. Precisava de um milagre. Foi quando Bololó se materializou no umbral da loja. Vendo Piloto mudo e a moça que chorava, tomou de chofre o papel de suas mãos e o leu em voz alta. Só então Cândido correu às prateleiras, enrolando com rapidez os maços de folhas. 

“Não sabes ler, então? Pois, sim. É fato. Tens que estudar”. Testa franzida, Bololó disse, depois que a freguesa chorosa deixou a loja. 

Não sentia pena do garoto, talvez até certa inveja. Porque era livre de regras e sabia o mel do mundo como poucos. Que o gajo fosse alfabetizado como se deve ou nada feito, que voltasse a ser carregador de feira. Cândido ouviu tudo, querendo e não querendo manter o emprego. Havia passado adiante o carrinho de mão. O dinheiro, investiu na fatiota. Calça de tecido, camisa de algodão, tênis de marca. Como haveria de ter volta? 

Saúde é não pensar nas coisas. Deu de ombros. Conhecia o mal de se examinar inteiro. Assim fizera o amigo de infância. Vira de perto a vergonha de se matar na feira. Neto, o pulador magistral da Baía de Todos-os-Santos. Naquele dia, tudo se moveu intenso. O sol pôs cores nas frutas. Fregueses ávidos, carregadores virando carrinhos nas curvas. Ali perdera a fé. 

Nenhum dos seus se erguera muito, o céu é longe. Vendeu fatiota, montou banca de frutas. De estudar, desconhecia lógica. Sandálias de dedo, peito nu, corpo suado. O pouco que tentou se perdeu na escola pública, onde Pena o levou para estudar. Quando o padrasto foi morto numa emboscada, Piloto recuou, deu meia-volta. Então sabia, sim, o “A” das coisas, desenhar em um papel o próprio nome. Mas agora até o próprio nome, José Cândido esquecera.  

Kátia Borges [Salvador, BA] é jornalista, poeta e cronista. Doutora em Literatura e Cultura [UFBA], é autora dos livros De volta à caixa de abelhas [As letras da Bahia, 2002], Uma balada para Janis [P55, 2009], Ticket Zen [Escrituras, 2010], Escorpião Amarelo [P55, 2012], São Selvagem [P55, 2014], O exercício da distração [Penalux, 2017] e A teoria da felicidade [Patuá, 2020]. 

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