À DERIVA

Foto: Christian Cravo

 

Não estou certo do dia que aconteceu. Com pouco mais de dezessete anos, eu já desperdiçara uma chance com a Orquestra Jovem da Bahia. Por bobagem. Seria o meu primeiro concerto. Nós ensaiávamos às tardes. E, adianto logo, a culpa, se culpa houve, não foi minha. Nós brincávamos sempre. Gostávamos de provocar um ao outro. Brincadeira de homem. Não era somente eu ou ele, mas todo o grupo, inclusive meu irmão. Do que me lembro, o nome dele era esquisito. O final parecido com uísque. Tocava trombone e tinha esse nome que poderia ser polonês ou russo. Eu não sabia ainda como se chamavam todos. Estávamos com apresentações marcadas na Europa e eu precisaria tirar meu passaporte se desejasse mesmo acompanhá-los. A possibilidade de atravessar o oceano me animava.

 

Meu irmão viajaria pela terceira vez só naquele ano. Eu entrara nessa por influência dele. Não que eu quisesse imitá-lo. Mas a mãe ficou toda besta quando ele apareceu na tevê. As amigas dela se achegavam da janela de casa e comentavam a roupa chique que ele estava vestindo e como, mesmo parecendo um ratinho ao andar na nossa rua, de uma hora pra outra, ali na tela, parecia gente, sem se intimidar na presença daquele pessoal importante do jornal.

 

Eu nunca pensei em imitá-lo. Éramos muito diferentes. Enquanto ele adorava cordas, eu preferia sopro. Enquanto ele se isolava em nosso quarto por horas e horas e horas, ensaiando ou estudando partitura, eu em pouco tempo aprendia as músicas e estava livre para jogar bola no campo, beber cerveja ou conversar com a turma nas rodinhas perto da linha de trem.

 

Talvez a única coisa que nos igualasse era o fato de, àquela altura da vida, não termos nenhuma menina interessada em nós. A maioria dos caras do nosso bairro era bastante precoce em relação a namoro e sexo. Alguns deles, inclusive, comentavam ter transado até com mulheres casadas.

 

Eu era tarado por uma menina com dreads descoloridos e olhos de um verde capazes de tornar qualquer um pedra. Se eu não sabia ainda qual era meu lugar no mundo, que finalidade dar à vida, meu corpo sinalizava com todas as suas forças quais eram as suas necessidades mais dramáticas, mais urgentes. Eu pensava nela enquanto tomava meu banho, quando estava só no quarto, quando assistia televisão ou ensaiava. Pensava em como seus peitinhos deveriam se encaixar nas palmas de minhas mãos, na cor de seus mamilos, em sua barriguinha sexy, no formato do seu umbigo, no quanto sua bunda deveria ser firme e ao mesmo tempo macia. E pensava, sobretudo, repetidamente, em mim agarrado em suas tranças, beijando-a ao mesmo tempo em que trepávamos.  

 

O pior é que eu nem sabia seu nome. Ou onde morava. Parece mentira, mas eu só a percebi alguns meses antes do convite para a orquestra. Até então, era tudo um vazio. A mais completa falta de vontade. Talvez, reflito agora, eu já a tivesse visto antes. Talvez ela apenas não usasse ainda os dreads que eu gostava tanto. Outra coisa que reparei nas festas de finais de semana da vizinhança: ela só se ligava em caras mais velhos. Eu logo imaginei a razão. Eles tinham grana. Eram o tipo de caras que andava por aí ostentando cordões de prata no pescoço, bonés coloridos com óculos de sol nas abas e bermudas e camisas de marca.

 

Eu e meu irmão poderíamos não ser bonitos nem malhados como os cantores de pagode que arrastavam a mulherada nas festas de largo e Carnaval. No entanto, se analisássemos de perto a estampa do pessoal da nossa rua, acredito que ficávamos bem acima da média. Nosso verdadeiro problema, e não tenho dúvidas quanto a isso, estava no fato de nossa mãe julgar que precisávamos mais de comida e livros do que roupas e calçados. O resultado disso era que meu guarda-roupas era quase todo das peças que não serviam mais no meu irmão. 

 

Eu vivia esfarrapado. Como eu poderia atrair a atenção feminina daquele jeito? Então, essa foi a segunda motivação para dizer a Joel, meu irmão, que eu aceitava o convite de substituir o ex-clarinetista da Orquestra Jovem, encontrado morto após sofrer um assalto a poucos metros de casa. Eu precisava desesperadamente ganhar uns trocados para comprar uma bermuda e uma camisa que tinha visto no shopping e, desse modo, conquistar a garota dos dreads.

 

A bobagem aconteceu depois do ensaio. Os músicos recolheram as partituras, guardaram seus instrumentos nas caixas e desceram as escadas de um prédio baixo no Pelourinho. Eu e o gordo do trombone ficamos para trás, falando de futebol. Ele era ligeiramente estrábico e a gente vivia fazendo piada um com o outro. Eu estava sentado com o clarinete entre as pernas quando ele se virou para mim e disse:

 

“Olhando assim, seu instrumento aparenta ser bem grande.”

Eu ri.

“Pra não negar a cor.”

“É o que dizem. Rá, rá, rá!”

“Já tocou um desses?”

“Rá, rá, rá… Não, não. Desses, não.”

Eu me levantei e fiquei bem de frente pro gordo.

“Quer experimentar?”

 

Ele estendeu o braço e me apalpou até que ficasse duro. Tirei o “clarinete” pra fora da calça e, enquanto ele o segurava e hesitava em levá-lo à boca, o maestro entrou na sala. Tentamos disfarçar, mas não teve jeito. Uma brincadeira boba e eu estava fora. Não cheguei a ganhar nem o primeiro salário, que estava mais para ajuda de custo, mas serviria para eu alcançar o meu objetivo.

 

Não sei a justificativa que o maestro deu ao meu irmão, se falou toda a verdade. Para minha mãe eu contei que ele não ia com a minha cara e cederia o lugar para algum protegido, possivelmente até alguém da própria família.

 

“Essa gente branca gosta de perseguir gente como nós”, ouvi ela repetir mais de uma vez às amigas.

 

Os dias passavam e eu via meu irmão sair toda tarde para seu ensaio na orquestra. Deixei de ir ao campinho e de frequentar as rodinhas dos amigos. Não saía mais de casa. Sem Europa, sem bermuda e camisa novas e sem os olhos verdes da menina de dreads, não disfarçava minha sensação de fracasso. Preocupada, minha mãe tentava me animar. Ela saía para o trabalho e eu, sempre com a cara voltada pro aparelho de televisão, mal me despedia dela.

 

Aos poucos, fui me acostumando com aquela rotina sem sentido e já começava a curtir meu isolamento. Na ausência dos meus familiares, fechava porta e janelas da casa e mantinha apenas a luz do televisor no ambiente. Quando não acompanhava um programa de auditório idiota ou um filme, eu dormia ou me masturbava.

 

Não lembro o dia da semana exato, mas uma noite minha mãe chegou do trabalho e me contou que conseguira um bico de porteiro para mim. Era coisa temporária. Seria para uma empresa prestadora de serviços. Eu teria de me apresentar em determinado final de semana. Se eu me saísse bem, talvez me contratassem. A princípio, recusei. Ela não baixou a guarda e me martelou com a proposta até quase me enlouquecer. Acabei concordando. Provavelmente o dinheiro não daria para comprar a camisa e a bermuda de marca, mas quem sabe ao menos uma delas?

 

A firma ficava na Calçada. O prédio era achatado e sujo. Havia um pátio logo na entrada. Estava repleto de kombis com logotipo na porta. Deram-me um uniforme e disseram para eu calçar um par de botas. Eu e mais sete outros homens entramos numa das kombis e o motorista nos levou embora. A cada parada desciam dois de nós e um novo par assumia seu lugar, exibindo nos rostos uma mistura de tédio e cansaço. Creio que eu era o mais jovem, mas ninguém aparentava ter mais de vinte e cinco.

 

O motorista encostou num portão lateral da Concha Acústica e mandou eu e o Ferreira, um negro forte, com cabelo raspado de milico e bigodinho, descermos. Logo apareceu o encarregado, outra dupla ocupou nosso assento, o motorista assinou um papel e partiu. O encarregado nos explicou que nossa função seria controlar a entrada e saída de veículos, que haveria um show naquela noite e não deveríamos deixar nosso posto por nada.

 

“Artista importante?”, perguntou Ferreira timidamente.

“Não que eu saiba. Vocês gostam de rock?”

“Odeio”, respondi.

“É uma banda nova. Tem uma música deles tocando no rádio. Se não me engano, fala de coca-cola”, disse o encarregado com malícia.

“Coca-cola? É sério isso?”

“Sim.”

“Puta que pariu!”

“De todo modo, se fizerem seu trabalho direitinho, não verão o focinho de ninguém. É só abrir e fechar o cadeado para os carros autorizados entrarem e saírem.”

 

No começo do nosso turno houve uma movimentação razoável. Assim que a zoada vinda do palco começou, o trânsito foi diminuindo gradativamente até parar de uma vez. 

 

Se eu não era considerado um cara dos mais comunicativos, Ferreira se passaria por defunto numa boa. Senti sede. Nós éramos obrigados a ficar em pé como dois idiotas naquele portão. Um tédio. Resolvi comprar uma latinha de cerveja. Meu parceiro não gostou da ideia. Eu não me importava se ele me delataria pro encarregado e eles não viessem a me contratar depois. Minha garganta estava seca. Seria somente o que meu dinheiro poderia pagar: uma latinha.

 

Quando passei ao lado do palco, vi uma multidão hipnotizada a olhar para um ponto específico entre os músicos. Parei, abri minha cerveja e dei um gole. A atenção de todo o público se concentrava no cantor da banda. O sujeito, para meu espanto, deveria ser uma das pessoas mais feias do mundo. Era magro, desajeitado, não se vestia bem, o cabelo aparentando ter sido cortado por um serrote cego, a boca com dentes pontudos e amarelos como os de um animal, os braços pálidos cobertos de pelos muito pretos e os olhos injetados de vermelho. Surpreendentemente, os demais componentes da banda representavam o seu oposto: tinham cara de filhinhos de papai que foram criados com leitinho morno pra não queimar a língua. Eram fortes, saudáveis, típicos estudantes de escola particular com pele macia e dentes brancos. Havia um baixista, um baterista e um guitarrista. Todos os três bonitos de maneiras diferentes. Contudo, as pessoas estavam encantadas justamente por aquele cantor de aparência medonha e voz possante. Que misterioso magnetismo ele exercia! Observei a plateia mais atentamente e notei uma grande quantidade de lindas meninas gritando, dançando e chorando ao mesmo tempo. Sem perceber, mesmo achando a música pobre, comecei a balançar o meu corpo da mesma maneira que os demais balançavam os corpos deles, olhos presos nos passos e gestos teatrais do vocalista. Terminei minha latinha de cerveja e continuei a dançar, tomado pela certeza de que não voltaria ao meu posto e não mais precisaria de bermuda e camisa de marca para conquistar o amor de ninguém.

 

Lima Trindade [Brasília, DF] reside em Salvador desde 2002. Publicou o romance As margens do paraíso [Cepe, 2019] e a novela O retrato ou um pouco de Henry James não faz mal a ninguém [P55, 2014], entre outros. Atualmente assina uma coluna de crônicas no site do jornal Rascunho.

Acesse a Revista