UM SAMBA SOBRE O INFINITO

Foto: Hugo Martins

 

Menina, você sabe onde é o fim do mundo? Eu já vivi 75 anos e ainda não sei. Você sabe onde o mundo acaba? Já foi lá? Ela, nos cinquentinha recém-completados se alegra. O que posso dizer é quem chega ao fim do arco-íris encontra o fim do mundo. Mas alguém já encontrou? O motorista pergunta enquanto vira o rosto para trás, tranquilo no trânsito de feriado em Salvador. Não sei. Aí o senhor me apertou sem me abraçar.

E a Lua? Dizem que o homem já foi à Lua? Você acredita, menina? Eu não acredito, não. Ah, que foi à Lua, eu acredito, tem as fotos, as filmagens… Mas quem garante que não é mentira? Você viu? Você tava lá? Isso foi armação, só pra dizer que se o homem chegou à Lua, ele pode chegar no fim do mundo.

Dizem que no fim do arco-íris tem um pote de ouro. O senhor já ouviu falar disso? Eu, já. Quando menino, o povo falava isso pra engabelar bobo e pra atiçar a ganância da meninada. Ah… aí eu discordo do senhor. Não poderia ser para instigar a beleza? O encanto pelo desconhecido? O sonho? O brilho do ouro como recompensa pela curiosidade? Pela busca? É, não sei, mas você pode ter razão. 

E o céu? Você acha que o céu existe? Eu achava que sim, até o senhor me fazer essa pergunta, agora não sei mais. Uma vez um erê me disse que o céu é a mãe do arco-íris. Rindo, o motorista avisa, você é mais confusa do que eu. Mas o céu, menina, esse existe. É mesmo? Por que o senhor tem certeza? Existe porque tem função. O céu é o tampo do mundo, como a lona de um circo. 

Essa é boa. O senhor parece taurino. Eu sou taurino mesmo, como é que você sabe? Um touro reconhece outro e só um taurino para justificar a existência do céu pela necessidade de um telhado para o mundo. 

A Terra é o circo e o céu é a lona. Mas é lona furada, porque de lá cai chuva, arremata o motorista. É, sim! O senhor tá certo. A chuva cai e enche o mar. E o mar vai dar aonde? O senhor sabe aonde o mar vai dar? Essa é fácil! Uai, é mesmo? Aonde é? 

 

O mar deságua no coração do marujo e por lá faz morada, menina. 

 

 

Cidinha da Silva [Belo Horizonte, MG] é escritora e editora na Kuanza Produções [www.kuanzaproducoes.com.br]. Publicou 19 livros e tem 220,4 mil exemplares em circulação. Um Exu em Nova York [Prêmio Biblioteca Nacional, 2019] Os nove pentes d’África [PNLD Literário 2020], são dois destaques. Tem publicações em alemão, catalão, espanhol, francês, inglês e italiano. É curadora de Almanaque Exuzilhar [Youtube] e conselheira da Casa Sueli Carneiro.

 

 

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