VOCÊS QUE SÃO BRANCOS QUE SE DESENTENDAM

Foto: Gabriela Palha

 

ei, você que não é branco, mas

toda vez que tocam no assunto 

 

do racismo, lembra da sua avó

negra bem retinta porque todo

 

mundo é negro no Brasil, você

que não é branco, mas que, na amena

 

conversa de mesa de bar, quando

é interpelado como um branco,

 

precisa lembrar, em sua defesa,

que, numa viagem à Europa,

 

você foi tratado com rudeza

por uma polícia xenofóbica,

 

ei, você que não é branco, mas,

com as melhores intenções,

 

pode dar conselhos sobre como

o tal movimento negro, assim,

 

único e fixo, pode ir 

mais adiante com sua grande ideia 

 

que você, de graça me oferece

para poder, grato, repassar

 

seu belo recado, vejam bem,

você que não é branco, porém,

 

contudo, entretanto, não obstante

tem a generosidade de 

 

não falar em consciência humana 

no dia da consciência negra,

 

todavia, em que pese a consciência

que, no seu caso, é deveras leve,

 

faz post engajado pontuando

as causas que valem mesmo a pena

 

investir, avaliar e rever,

ei, você que não é branco, mas

 

por uma mera coincidência,

nas situações em que indetermina

 

o sujeito complexificado

pela sua sintaxe arrojada,

 

usando o termo “aquelas pessoas”,

via de regra a pessoas aquelas

 

em situações que comumente

se associam a indivíduos negros

 

porque também, por coincidência,

raça e classe se encontram na esquina

 

pela qual você passou à noite

e, portanto, nada estava nítido,

 

ei, você que não é branco, mas

atravessou para o outro lado 

 

e na encruza da sexualidade

e gênero fez a confusão

 

com o que você supõe ser meu gênero

distinto do seu porque você

 

é um hétero desconstruído

até virar para a segunda página

 

e ser informado que sou cis

assim como você, ei você

 

que não é branco, mas, na hora

que lhe é um tanto conveniente,

 

fica muito ofendido no caso

em que porventura alguém lhe lembre

 

que o racismo estrutural tão bem

usado em suas falas engajadas

 

não só não lhe dispensa de ser

chamado de como também é 

 

sim constituída de racistas

uma sociedade amparada

 

no racismo estrutural, portanto,

se você faz parte da sociedade

 

que tem no racismo sua base

você pode ligar os pontinhos,

 

ei, você que não é branco, mas

sempre que possível associa

 

negro(a) e bom(a) de cama em uma sentença

como se fosse pura gentileza

 

falar sempre rindo do seu gosto

especificado a uma raça

 

que você coloca na gaveta

junto a outras peças de sex shop,

 

ei, você que não é branco, mas

quando raramente me pergunta

 

sobre o que eu penso do racismo

me interrompe na segunda frase

 

e começa a me contar histórias

que em que pese não se haverem dado

 

com você, você, coitado, chora

muito emocionado à minha frente

 

sobre a sensação de impotência

que lhe acomete esse problema

 

que você discorre sobre horas

e depois me pede que complete

 

aquela sentença interrompida

que já não lembro mais porque estou

 

demais ocupado enxugando

suas muitas lágrimas empáticas

 

de Petra von Kant muito amargas,

ei, você que não é branco, mas

 

elogia o português que eu falo

e ao ver a minha cara de paisagem

 

diante do generoso elogio

reforça que eu falo muito bem e

 

e quão impressionantes são meus verbos

ou fica chocado quando ouve

 

sonatas de bach na minha casa,

ei você que não é branco, mas

 

depois de saber que sou baiano

numa mesa de jantar apinhada

 

começa a me contar da sua vida,

me pede conselhos e pergunta

 

qual o orixá de sua cabeça,

ei você que não é branco, mas

 

frequenta um culto afro que é o máximo

pra você se proteger falando

 

Exu bem alto em tom de ameaça

porque você não é um cristão

 

e se dirige ao meu ateísmo

me ensinando como eu deveria 

 

me relacionar com os ancestrais,

ei você que não é branco, mas

 

não sabe com quem está falando

e nunca vai saber, Laroyê!

 

 

Alex Simões [Salvador, Bahia] é poeta e performer. Publicou, entre outros, “no meu corpo o canto: #experimentoscomletrasurbanas” (2020), em coautoria com a Tanto Criações Compartilhadas e em breve vai lançar “assim na terra como no selfie” (Paralelo 13s), seu sexto livro de poesia.  Tem um blog: toobitornottoobit.blogspot.com.br

 

 

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