POEMA-EBÓ

Foto: Mario Cravo Neto

 

[Pelo 20 de novembro]

 

Dono das encruzilhadas, 
morador das soleiras das portas de minha vida

Falo alto que sombreia o sol:
Exu!

Domine as esquinas que dobram 
o corpo negro do meu povo!
Derrama sobre nós seu epô perfumado,
nos banha na sua farofa 
sobre o alguidá da vida!

Defuma nossos caminhos
com sua fumaça encantada.
Brinca com nossos inimigos,
impede, confunde, cega
os olhos que mau nos veem.

Exu!

Menino amado dos Orixás,
dou-te este poema em oferenda.
Ponho no teu assentamento 
este ebó de palavras!

Tu que habitas na porteira de minha vida,
seja por mim!
seja pelos meus irmãos negros
filhos de tua pele ébano!
Nós, que carregamos no corpo escuro 
os mistérios de nossas divindades,
te vemos espelhado nos nossos cabelos de carapinha,
nos traços fortes de nossas faces,
na nossa alma azeviche!

Mora na porteira de nossa vida, 
Exu!
Vai na frente trançando as pernas dos inimigos.
Nos olhe de frente e de costas!

Seja para nós o que Zumbi foi em Palmares:
Nos Liberta, Exu,
Laroiê!

 

[Em Correntezas e outros estudos marinhos, 2015]

 

Enluarada

 

“Quando Ismália enlouqueceu,

Pôs-se na torre a sonhar…”

  Alphonsus de Guimaraens

 

Se existe nome para isso

Que me corta os dias

É que minha mãe enluarou-se

E o que lhe é de solar

Ilumina um outro continente

 

Mamãe, a filha perdida,

Tornou-se a criança encontrada

No desencontro das marés.

Encheu-me o útero silente

Com sua luz que brilha

Apenas porque reflete o sol

impossível.

 

Ela vive emborcada junto às embarcações

Com seu dorso velho embrutecido

Pela violência das torrentes.

Como as redes partidas,

Feridas de morte

Aspiram maresias antigas,

Mamãe se lembra do que foi

Ou vive eterno vazio

Do inalcançável retorno?

 

Não sei.

 

Sei que, enquanto seu pequeno barco

Sonha-se Saveiro longo

E abre as asas encardidas de sol

E sal,

Eu vou trançando,

Em seus cabelos,

Histórias possíveis,

Costuro as redes mortas com palavras

E silencio o que me sangra

Quando a lua reflete

sombras de luz que furta

do sol.

 

Asè

 

O tempo não passa.

O tempo não para.

O tempo não conjuga verbo.

Não interpreta. Não precisa.

 

O tempo todo se gasta em Ser.

 

Como se, de joelhos, eu contasse os grãos duros da espera.

 

Eu entro na fresta fresca do tempo. E fico temporã.

 

Sendo um animal vestido de branco. Um corpo-casa d’alguma coisa que brilha/navalha.

 

Serei a dobra de uma Concha.

Um iníciofim, sem entrepostos.

Uma renascida, pactuada.

 

Deitarei na bem trançada esteira da vida e dormirei com os olhos do segredo.

 

Depois que de nada lembrar,

mais serei.

Tal como Sereia encantada

Vou morar dentro do tempo que apenas é,

sem jamais esquecer.

 

Contando crianças mortas

 

Criança Morta

por uma bala perdida

              – de fuzil,

nas costas:

 

Agatha Felix, 8 anos,

Complexo do Alemão.

 

Criança de 12 anos de idade.

“entrou em confronto armado com a PM”

Pequeno demais, mas suspeito,

mais um preto típico – suspeito – do Complexo do Alemão.

 

Efeito colateral,

12 anos,

Criança-dano

secundária na guerra ao tráfico na Chatuba,

Dizem que sentem muito,

            jamais saberemos.

 

Troca de tiros,

bala perdida,

acidente,

enganos letais:

 

Jenifer Gomes, 11 anos, Triagem.

Outra criança de 11 anos, não identificada, Itaboraí 

Mais uma criança não identificada, 11 anos, Jardim Catarina.

Criança não identificada, 10 anos, Galo Branco.

Ainda na barriga da mãe, em Costa Barros.

Criança não identificada, 3 anos, Magé.

Criança, idade desconhecida, Complexo da Maré

Criança não identificada, 8 anos, Complexo do Alemão.

Mais uma, da mesma idade, em Maricá.

Criança não identificada, 6 anos, Complexo do Chapadão.

 

Seguimos arrastando cadáveres pequenos,

velando em caixão fechado

vidas devoradas,

 

por engano,

pelos dentes do fuzil.

 

Victor Almeida levou um tiro na cabeça,

aos 7 anos, em Marechal Hermes, onde morava.

 

Letícia Ferreira tinha 9 anos,

Quando foi morta em Duque de Caxias.

 

Os pais queriam seus filhos

criados para o mundo,

mesmo na vida pequena,

nos apertados barracos,

havia a sombra bonita

um caminho, para elas, bordado.

 

Mas a Polícia os mata como moscas,

os pisam, baratas, no sem querer

dos coturnos bem lustrados.

Há uma guerra terrorista,

Que nos costura a vida e

ninguém pede desculpas

porque somos, desde sempre,

o dano colateral deste País

e matar crianças negras é,

antes de tudo,

uma política de Estado.

 

Negrixtência

 

Não é qualquer pessoa

que sabe ser o que somos:

Casca de ferida.

 

Destas que (des)cobrem a dor

na meia contentação

de uma luta inteira.

 

Não é pra qualquer pessoa

não ser de brincadeira,

ser pau de dar em doido

e não poder enlouquecer.

 

Mais do que casca

somos a goela aberta da ferida

gritando silêncios Ancestrais!

Somos veia aberta sangrando,

sagrada,

os nossos rios, nossas rotas, rôtas

de dor negreira.

 

Somos algo que sangra e,

aguente,

porque vamos sangrar alto!

Se quase 400 anos não mataram,

é porque a nossa raiz é profunda

todo preto é uma estrela suspensa,

somos feitos de um brilho

que mareia maré,

que se sabe lua,

que deambula imenso e se faz sol!

 

A gente sangra capoeira,

fazendo espiral na sua certeza.

A gente dança Alujá com pés de Oxê,

e no contrapé da dor,

Fazemos cura.

 

E, de pé, ante nossa dor,

seremos a cura!

 

Nasce um Baobá

 

A Toni Morrison

5 agosto de 2019

 

Quando nasce a raiz das coisas,

ela vinga no apesar das intempéries.

Se cria funda no escuro da terra

E é um estranho fruto,

Brotado das árvores do Alabama em 1963.

 

Sankofa sobre-si dobrada,

Antes de girar,

Cortando a terra,

Se reconhece betumosa,

Insubmissa.

 

Na cabeça, carrega as raízes

Em dreads difusos,

Que conversam com o Tempo.

 

Quando, finalmente, cresce tronco,

Sente, no ventre, percursos inscritos

Pela chibata-sangue tornados

Vielas, guetos, breaks, becs, jazz

Erguendo-se para além da dor.

 

 

Lívia Natália [Salvador, Bahia] é poeta, escritora e pós-doutora em Literatura Brasileira pela UNB. Além de ser professora de Literatura na UFBA, já publicou diversos livros de poesia, a exemplo de Correntezas e outros estudos marinhos e Dia bonito pra chover [Prêmio APCA 2017].

 

 

Acesse a Revista