FRONTEIRA

Foto: Wendell Wagner

 

 

Salvador é meu poema de sal.

Um dínamo entre água e pedra

invertebrado que

esmaga 

o velho semáforo

o velho mito

os velhos bairros.

 

(A cidade é a vidraça 

que ruiu no tempo,

opaca das estrelas

de matar os olhos

de escangalhar a bile 

– 

ventre das meninas partidas

os ossos

anciãs de 20 anos

abertas ao turista que elegeu a Bahia

como violência e postal.)

 

Salvador é meu poema.

 

O mundo se perdeu

quando fui pro agreste

,

pleura que cortou os anos e me batizou como cedro que pega a fome na embalagem.

 

Por muito morri no agreste,

salpicada de corais que não vivi

de algas do Centro e seus cavalos puro-nada. 

 

Minhas mãos são aquedutos de tristeza

a tocar Salvador quando dorme –

labirinto de flores e dinossauros.

 

Salvador é meu poema.

 

Uma cicatriz habita os miolos da praia

e devolve à areia o lodo dos prédios,

a classe burguesa e os vitrais de colônia. 

 

As paredes de Itapuã são o útero que não vingou,

terço materno de palha.

 

Os animais que devoram 

estão nas paredes,

ocres do rifle dos bancos, 

um harém de neve e meteoros.

 

As fitas coloridas no braço da infância.

Eu menina Jardim de Alah

 

não imaginava a vida

o semblante o sintoma

e a chave que não quebra

a dØr um dia simulada,

um salteador que move baias enquanto ama o agravo.

 

Meu interdito é o papel 

de salivar asfalto

.

Sempre quis escrever à cidade.

Mas sob ela me vejo agora.

 

Não faço gorjeio há anos,

porque Salvador tocou todos os lugares:

fugiu de barco pra Malta;

namora um deputado;

trocou de nome;

fala inglês;

virou deserto;

está alugada.

 

As sentinelas cruzam

as ruas de latão

 

os cães, as motos

um buraco na city

baixa.

 

Uma deusa, um amputado – Salvador, um poema.

 

Ilha de roedores

e smoke

e prostitutes 

o olvido do avesso,

um caralho enlutado.

 

O silêncio do crack

é um remendo 

bem atrás 

das coloridas fachadas

:

pelourinho tão seco

,

igrejas de ouro 

e

barroco

e

suor escravo

;

monges de azulejo azul

criam espelhos ( 

linguagem de barro, 

como aquele de certas casas

as casas do agreste que me guardaram.

 

Servi em mesas 

mucama 

penhora –

família,

esse DNA de sorte e signos,

prohibitorum pater.

 

O salmo da lagoinha 

não me livrou dos pecados

… Salvador, que, ó, como é triste dizer tão óbvio, por ser tão certo, que não salva.

As chacinas 

e os láparos de hóstia que a língua -cépa.

 

Desenhei 30 anos pra voltar a Salvador

e rever a menina triste que amava.

 

Desta colina,

meço as calçadas de plástico

e cada uma é uma história 

um missal de células. 

 

No poema que rezo quis ser menos sanitária

mas não posso copular os cegos que bordam 

solidão, dengue, agiotagem, aço.

 

Milícias velejam pela capital

e o poema é a víscera a demolir: 

Atlântico,

este beco de aquarela, 

um navio, um funeral nos porões do espaço. 

 

Clarissa Macedo [Salvador – BA] Poeta, escritora e doutora em Literatura e Cultura. Publicou O trem vermelho que partiu das cinzas, Na pata do cavalo há sete abismos (Prêmio Nacional da Academia de Letras da Bahia) e O nome do mapa e outros mitos de um tempo chamado aflição. É idealizadora do 1º Encontro de Autoras Baianas – Marcas Contemporâneas.

 

 

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