SALVADOR, CIDADE-FANTASMA

Foto: Coletivo Cutucar

 

É um domingo qualquer de janeiro do ano de 2021. Portanto, é verão numa cidade solar e estranhamente vazia, em comparação a outros janeiros e verões que parecem neste momento inalcançáveis. De dentro de casa, fecho os olhos e percorro as ruas como quem acaricia com os dedos as lombadas de livros alinhados numa estante infinita, e de repente para, escolhendo algum, ao acaso. “Foi. Nunca mais será. Lembre-se.” São essas as últimas palavras de um livro escrito sobre uma perda pessoal, sobre alguém próximo que se foi e que se tenta de alguma forma reconstituir no tempo e no espaço atuais: um inventário de memórias. Na rua por onde passeio mentalmente observo os fios elétricos à mostra, a banca de frutas, as portarias dos prédios, as farmácias e restaurantes, me demorando em frente a uma livraria, a 100 metros do Porto da Barra. Se eu levantasse e de fato caminhasse até lá, encontraria agora as suas portas fechadas e o seu interior vazio. O morador de rua que circulava pelo bairro também não está mais lá. Foi. Nunca mais será?

 

Desde o ano anterior, no mundo todo – mostravam as notícias, os vídeos e fotografias fantásticas –, as ruas se tornavam mais vazias de gente, mas as cidades permaneciam vivas. É assim, mesmo quando não circulamos, a cidade está viva o tempo todo, e vai perdendo pedaços. Quão reconhecível será depois, se houver depois? Ao mesmo tempo em que os endereços conhecidos desaparecem no silêncio, brota ali no bairro vizinho um novo bar, e aqui ao lado uma sorveteria, árvores imensas desaparecem, novas avenidas e viadutos redesenham os caminhos possíveis para, no futuro, haver outras maneiras de se perder.  

 

Há cidades que se permitem conhecer por seus indícios, mesmo que estejam desabitadas. Algum viajante do futuro poderia percorrer cada uma delas com um mapa à mão e decifrar o seu espírito, adivinhar a sua personalidade. Salvador é um outro tipo de cidade, cheia de mistérios, para a qual se precisa de guia e os mapas não bastam. Uma cidade de passagens mágicas, em que virando à direita numa grande avenida se pode sair, de repente e sem nenhuma lógica aparente, em outro bairro inesperado. Uma cidade de ruas e avenidas com nome e apelido, para atordoar e confundir qualquer forasteiro.

 

Deve haver cidades que vivem apenas o presente, e se mantêm as mesmas ou se reconfiguram sem que isso sequer se perceba. Mas Salvador tem um jeito peculiar de resistir e carregar consigo os seus fantasmas. De que outra maneira se justificaria que até hoje matérias de jornal, transeuntes dando informação pelas ruas e até mesmo corretoras de imóveis se refiram a um endereço específico entre a Avenida Vasco da Gama e a Avenida Garibaldi como o terreno da “antiga fábrica da Coca-Cola”, quando a essa altura ninguém se lembra mais nem mesmo quando ela deixou de existir? Turistas desavisados certamente solicitam pelos aplicativos de transporte uma corrida até a Praça Caramuru, sem desconfiar de que, para os locais e mesmo para o Google Maps, se trata para sempre do “antigo Mercado do Peixe”, e que o aeroporto local jamais deixará de ser o “Dois de Julho”. É possível que o mesmo aconteça com a livraria próxima ao Porto, e o futuro precise carregar consigo a lembrança do que foi. Porque talvez, para essa cidade ancestral, que viu o fim do mundo tantas vezes e continuou existindo, a parte mais importante e natural do inventário da memória seja justamente o trecho final: 

“Lembre-se”. 

 

Moema Franca [Estância, Sergipe] Escritora e jornalista, é mestre em Comunicação [UFBA] e doutora em Literatura [Paris 3]. É autora de “Bem aqui, em lugar nenhum” [2013], finalista do Prêmio Jabuti.

 

 

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