SETE PORTAS

Foto: Shirley Stolze

 

Desocupado leitor, coisas estranhas estão ocorrendo nessa terra pintada de verde, amarelo, azul e branco. Não tô conseguindo dormir direito. E você?

 

Veja bem, moro no Bairro Guarani, na Liberdade. Aqui, pombos e gatos estão colonizando o espaço e marcando o território de todas as formas. No largo do bairro, recebi uma cagada de pombo na cabeça. Curiosos como somos, um transeunte se aproximou, avaliou o estrago em meu cabelo afro e disse com toda bondade do mundo: dizem que cocô de pombo traz sorte, bróder. E eu, que agradeci a gentileza de suas palavras tão sinceras em tempos tão bicudos, queria o azar de andar limpo e tranquilamente em um espaço razoável da calçada.

 

As boas oportunidades estão escapando de nós. O som que se amplifica em carros arreganhados no meio da rua ou em varandas vizinhas parece a chave para se descobrir, por exemplo, a evolução da surdez humana (reparou que a gente mal se escuta?). Outro dia mesmo, por cima da confusão de sons, uma vizinha que tem o hábito de conversar com a outra pela janela indagou repetidas vezes: QUÊ?! QUÊ?! Até que houve um breve rebaixamento das melodias em disputa lá embaixo e pude ouvir: MINHA FILHA, DE GRAÇA, ATÉ INJEÇÃO NA TESTA!

 

A risada generalizada me fazia crer que éramos um povo feliz, sempre apesar de. Só que agora, até os gatos daqui da rua andam estressados e resolveram se matar. É uma confusão atrás da outra e nunca consigo entender bem o motivo. Preferia que a bondade continuasse a ser mais contagiante.

 

Já reparei que tem uma turma do mal responsável pela guerra animalesca: a gangue dos números, essa foi a alcunha que lhes dei. Andam em grupo, enfileirados: zero um, zero dois e os outros, tocando o terror. Como se espalhar dor e sofrimento fosse sua missão aqui na Terra. Quem mais sofre nas garras deles é um gatinho cada vez mais solitário que resolveu fazer morada em minha porta (como se quisesse chamar minha atenção) e que, pelo rabo carcomido, pelas cores rajadas e pelos olhos amarelados, apelidei de Brasil. Em certa ocasião, coloquei um pouco de água e comida e a aproximação me fez perceber que suas patas pareciam queimadas, como se vivesse caminhando num solo fumegante e até me ocorreu pensar no próprio inferno. Da última vez que lhe socorri, me retribuiu um olhar lacrimejante de partir o coração. Mas, não se engane, às vezes, ele anda com um ar aristocrático e me acabo na risada com sua petulância.

 

Apesar de tudo isso, essa noite, talvez pelo cansaço, comecei a achar que desabaria e teria um sono tranquilo. Quero dizer, achei que a ansiedade e o estado de ânimo perturbado que têm me acompanhado esses dias não alcançariam a minha cama. Só que num tempo indefinido, me vi sonhando com Brasil. Ele tava sendo perseguido mais uma vez pela gangue dos números. Dessa vez, vi com nitidez no sonho, se deparou com sete portas em sua frente. Parou, encarou as possibilidades e não se decidia por qual caminho seguir. Até que ao seu lado direito surgiu uma ladeira bem íngreme e ele optou por correr aflito para lá, fugindo, subiu e senti que foi perdendo as forças. Acho que ele pensava que lá no alto fosse encontrar a paz suprema e um reino próspero.

 

Evanilton Gonçalves [Salvador, Bahia] Graduado em Letras Vernáculas pela UFBA e mestre em Língua e Cultura pela mesma instituição. É autor do livro Pensamentos supérfluos: coisas que desaprendi com o mundo [2017].

 

 

Acesse a Revista