O AMOR AINDA ENDOIDA UM

 

Foto: Alvaro Villela

 

O inferno é cheio de memórias, Anastácio. Não tem fogo nem enxofre, mas tem um saco de Memoriol para você engolir todo dia, e ficar com a mente acesa, lembrando do que já passou na vida. E lá há também os fantasmas das ex-mulheres que te deram azar.

 

Me permita falar assim, me permita. Você fica aí, sofrendo por essa Heleninha, e se ela pudesse sambava no seu caixão. Tinha mais que fazer, sabe o quê? Pegava o primeiro ônibus para Candeias, para Madre de Deus, Cachoeira, São Francisco do Conde, sei lá… Chegava num boteco, o arrocha na maior altura, tomava todas até curar essa dor de chifre. Sim, ouvindo arrocha na maior altura. Todo mundo que leva um pé na bunda tem direito a um vale-bode, a um vale-porre, a desabafar tarde da noite com uma dona de bar, enquanto ela arruma as mesas. Mas a dona tem que ser uma mulher com cara de mãe, você escolhe bem ao entrar, que elas dão importância a essas novelas.

 

Não está vendo? Você devia era agradecer por Heleninha mandar uma mensagem dizendo que apareceu outro na vida dela. “O universo trouxe alguém”, não foi assim que ela escreveu? Porque ela não precisava se despedir de você, ela nunca esteve aqui ao seu lado. Estava contigo, mas não te pertencia. Sim, aceitava os convites, vinha a reboque, gostava das firulas que você fazia, mas até eu, que não sou mulher, até o Janjão aceita ser bem tratado.

 

Olhe que eu não gosto de falar de mulher de amigo, porque depois ele reata o namoro e os dois passam a me odiar, mas, nesse caso, é perda total. Outra coisa que pode lhe doer no esfíncter: já pensou que ela pode não ter ninguém, só quer vazar? Leninha não é mulher de se apegar, e pode ter o homem que quiser, agrada a gregos e taurinos.

 

Aliás, antes que você ache que eu tenho desejo por ela, eu confesso: é um mulherão mesmo, a turma toda comenta, a gente só não dizia na sua frente, nem ia furar seu olho nem ficar com a gata. Mas o seu problema é justamente esse, você é muito abusado, e acredita em milagre. Você apostava mesmo que conseguia manter uma dona de nível excelente como Heleninha? Como aquela outra, Fernanda, que você trouxe outro dia? E aquela que mora lá em Alphaville, a médica, como chama mesmo? Você, que já passou dos quarenta, nem tem esse dinheiro todo, atrás de ninfeta? Se isso não é vaidade, o que é, então?

 

Olha, a beleza é fundamental, mas a água também é, e a água afoga. Lembra da “Garota de Ipanema”, como Vinícius ficou arrasado? Começou falando da coisa linda, cheia de graça, depois percebeu que estava “tão sozinho”, que “tudo é tão triste”, que a beleza que existe “não é só minha” e “também passa sozinha”. Isso ele estava em Ipanema, na praia… e ficou triste. O mundo mais lindo por causa do amor, e ele triste.

 

Eu não sou de alisar macho, Anastácio, mas você também não é o último homem da face da terra, basta se arrumar um pouquinho, fazer essa barba, cortar o cabelo… agora fica aí, se desprezando por quem não lhe quer. E o pior, volta e meia tem esse drama, toda vez que uma se vai, você repassa o filme todo com a rapaziada, relembra beijos, mordidas, detalhes tão pequenos. Parece que guarda as coisas boas e na despedida elas vazam, elas sangram do seu coração. É como se fosse uma moça, com essas sentimentalidades de Bianca, de Júlia.

 

Olha, vai ser R$ 50,00 a cota de cada um para comprar o presente do Evandro, eu vim buscar. Você sabe que a turma da quadra quer dar uma coisa boa para o amigo que vai se casar.

 

O que é que você tem com isso, se o casamento é dele? Amizade. Não é porque está sem ninguém que seus colegas têm que ficar chorando, do seu lado. Você não está só porque seu amigo vai casar e seu amigo não vai casar porque você está só. Muita calma nessa hora! Já ouviu falar da Roda da Fortuna? Hein? E da Lei do Retorno? Pois nada disso funciona, porque no amor não há lei nem guarda de trânsito.

     

     Ouça os meus conselhos, mude de vida.

     E sim, pode fazer um pix, eu te dou a chave.

     Coração é terra que ninguém passeia.

 

Franklin Carvalho [Araci, Bahia] Jornalista e autor de Céus e Terra [2017], vencedor do Prêmio SESC e do Prêmio São Paulo de Literatura. Também foi vencedor do Prêmio Nacional da Academia de Letras da Bahia com o livro A ordem interior do mundo [2019].

 

 

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