O AUXÍLIO EMERGENCIAL NO BUZU

Foto: Amanda Oliveira

 

Linha 1386 · Barra/Jardim Esperança-Nova Brasília

 

Ana Paula Caloteira, minha amiga, precisou ir buscar a primeira parcela do auxílio, mas não sei por qual motivo ela inventou de ir à caixa econômica do bairro da Graça. Já era umas seis da tarde quando Ana chegou aqui no portão toda descabelada, perguntando se tinha alguma farofa para comer, eu disse:

 

“Ana, só sobrou um pedaço de frango e um pouco de arroz com brócolis.”

 

“Ai, menino, qualquer dia desses vou sair de sua casa voando com penas verde.” 

 

“Oxente, pede comida e ainda vem com desaforo!”

 

“Tiaguete, abra logo esse portão pelo amor de Deus! Já basta passar duas horas dentro do Integra 1386, depois de ficar o dia inteiro na fila da Caixa Econômica da Graça pra pegar a primeira parcela do auxílio emergencial.”

 

“Que bom que conseguiu, Calô! Agora, vai pagar o que me deve.”

 

“Olhe, nem comece que não tô boa.”

 

“O que foi, criatura?”

 

“Veja se sou errada: tô bem garotinha, sentada na paz de Jeová no ônibus, quando encosta um senhor do meu lado e começa a falar: ‘Ah, agora todo mundo quer o auxílio emergencial, nunca trabalhou e vão tudo pra frente da Caixa. Hoje, fui pegar meu FGTS e tive que enfrentar uma fila enorme por causa desse povo.

 

“Qual foi mesmo desse homem, Ana?”

 

 “Eu tinha sentado naquele banco próximo do cobrador. Você sabe que sempre sento ali, né?” 

 

“Sim. Você sempre senta ali quando o cobrador é bonitinho pra ficar de frete seco.” 

 

“Eu já tava estressada porque passei o dia inteiro tomando sol, sem comer nada e aí vem esse homem pra ficar me dando sotaque.” 

 

“Como você sabe que era pra você?”

 

“Ele me viu conferindo o comprovante da Caixa Tem… aquele re-cal-ca-do!”

 

“Hum…”

 

“Eu olhei pro homem dos pés à cabeça. Revirei os olhos, respirei fundo que nem uma cobra caninana e joguei na cara dele: olhe, bonito, eu não te conheço, não sei o seu nome, não tenho o número do seu RG, do CPF, nem sei quantos anos o senhor tem, mas se tiver me dando indireta, acho melhor fechar a cara, me respeitar e procurar outra pessoa pra perturbar…”


“Caloteira do céu!” 

 

“Ah, que nada… e disse mais: olhe, querido, você não sabe da minha vida, não sabe de quem sou filha, nem qual o meu orixá. Então, não mexa comigo que eu não ando só, como diz MB, a abelha rainha.”

 

“E você escuta Bethânia?”

 

“Por osmose… já que você me obriga!”

 

“E o homem, Caloteira?”

 

“O homem ficou azul, vermelho… todas as cores. Tentou disfarçar… o ônibus todo olhando. Claudiane, filha de Zé do Bujão, tava no fundo do buzu, ouvindo tudo, depois começou a gritar: ‘Arrasou, Anaaa!’

 

Ele te disse alguma coisa?

 

“E quem disse que deixei?”

 

“Não?”

 

“Não! Levantei a cabeça, cravei meu olhar nele, e completei: olhe, tô há dois meses sem sair pra passar minha rifa no bairro. Tenho três filhos, dois poodles, meu marido foi embora, me deixou sozinha… e o senhor, boazudo, vem pra cá me dizer o que não sabe. Seja sensível, nem precisa ser demais, mas seja… porque o senhor, bonito, não tem ideia do que eu tô sofrendo.”

 

“Ana, você mentiu! Nem passarinho você tem.”

 

“Nesse momento, ficou um climão… todo mundo do buzu olhando, quase me levantei pra passar o chapéu porque ninguém do 1386 esperava aquele show às cinco e meia da tarde no meio da cidade, cheia de buzina e vendedor de água e de pendrive. Ah, Tiaguete, e não venha com essa de falar a verdade. Eu tinha que colocar aquele homem escroto no lugar dele.

 

“E aí…”

 

“Aí, que ele foi passando pro fundo do ônibus, sem graça, sem graça… e eu bem bonita, conferindo meu nome, o saldo do auxílio e bem menininha anotando o número do novinho que trabalha na Caixa auxiliando os clientes.”

 

“Eu sabia que em algum momento iria aparecer um contatinho nessa história.”

 

“Você não sabe é de nada… Eu quero saber é do que te pedi!”

 

“O frango com arroz e brócolis?”

 

“E o que me trouxe aqui além da fome de comer?”

 

“Vá esquentar. É só ligar o fogão!”

 

“Ah, esqueci de falar… menino, não paguei o transporte, nem da ida, nem da volta. Disse que tava sem dinheiro por causa da pandemia e que precisava da ajuda pra ir buscar o auxílio, isso era verdade. Na volta, inventei que não tinha recebido.”

 

“Mas você anunciou pro buzu inteiro que tinha recebido o auxílio.”

 

“Tiaguete, não queria te contar, mas antes disso já tinha rolado um clima com o cobrador. Então, não fui cobrada, nem chamada de caloteira. Satisfeito?”

 

“Mas você é caloteira!”

 

“Ó, vou pegar meu frango e esse negócio verde… só espero não sair voando como uma galinha”.

 

“E me pagar os abadás de 2017, viu, querida?!”

 

“Esse dinheiro já tem rumo certo. Olhe, se cuide, se afaste das pessoas, use máscara e passe álcool gel nas mãos.”

 

“E você passe álcool na consciência!”

 

“Beijo, Tiaguete, já fui!” 

 

Tiago Correia [Salvador, Bahia] é poeta, doutorando e mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Literatura e Cultura [UFBA], graduado em Letras Vernáculas [UFBA].  

 

 

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