GUIA DE SAUDADES E BOLINHOS DE ESTUDANTE NO PELÔ

Foto: Aristides Alves

 

Menino nascido e criado até os dezesseis anos na Península de Itapagipe (Alagados, Jardim Cruzeiro, Uruguai e Roma), eu, em dia de subir a Ladeira da Montanha ou o Elevador Lacerda para compras com minha mãe na Cidade Alta, tinha sempre expectativas de um passeio de grandes novidades. Nessa época, final dos anos 1970 e quase toda a década seguinte, as lojas da Avenida Sete de Setembro e da Rua Chile eram ainda uma referência de comércio de rua popular e chique, embora já com sinais de pouca atração em relação aos shoppings, principalmente o primeiro e maior da cidade, o Iguatemi.

 

O diferencial era que neles dificilmente se encontrariam personagens erráticos ou exóticos como a Mulher de Roxo com sua cara de “meter medo em criança” na entrada da Casa Sloper, ou ainda o Guarda Pelé com sua performance gestual neobarroca organizando o trânsito no cruzamento das ruas Carlos Gomes e do Cabeça ou na Praça Castro Alves. Andávamos do Campo Grande até a Praça Municipal quando mainha saía da Boca do Cofre, como era chamado o setor de pagamentos do Governo do Estado no Corredor da Vitória, com seu salário em dinheiro vivo de auxiliar de enfermagem. Garantia de no final do mês ganhar brinquedos, doces, roupas e sapatos da Mesbla, Lobrás… Filho único, os mimos eram só para mim.

 

As aventuras pelo Centro não se resumiam a esse circuito de compras. Minha mãe nunca me levou para além dos limites da Prefeitura. Praça da Sé, Terreiro de Jesus, Largo do Pelourinho, Santo Antônio Além do Carmo eram inacessíveis. Espaços vistos com preconceito, onde diziam só ter “zona de meretrício”, “bodega de cachaceiros”, “baticum de pretos”, um “bocado de mendigos” e “desordeiros da capoeira”. Um mundo pelo qual criança não andava, mesmo que sua origem não fosse muito diferente da população pobre e negra que morava ou transitava por ali.

 

Certa vez, eu a assustei com um pedido quando saímos da loja Duas Américas, seguindo em direção ao Elevador para descer e pegar o ônibus da empresa Sul América de volta para casa. Eu tinha acabado de ganhar um jogo de bingo e dama da marca Estrela pelo bom desempenho nas provas escolares. Estava com fome e queria comer um bolinho de estudante de uma baiana no Pelourinho. “Como você sabe?”. Eita, me arrependi de falar. “Hein, menino?” Continuei calado. Já estávamos passando pelo Palácio Rio Branco, virando a esquina para a Praça Municipal, quando olhei para a Rua da Misericórdia. Tio Mirinho, ou Mestre Coringa, capoeirista conhecido nas rodas do Mercado Modelo, me levava com ele para o Pelourinho. Aquela rua era um portal para outras experiências soteropolitanas.

 

“Seu tio Mirinho, né? E sua avó deixou você sair com ele?” Como ele morava com minha avó Tarcila em Pirajá, os netos que passavam férias e feriadões na casa dela corriam sério e divertido risco de serem levados para as “capoeiras” de Mirinho. Um sarará de mais ou menos 1,70m, de cabelo encaracolado baixo, parrudo e xingador, para desespero de sua mãe que era evangélica. “Jeová Deus te repreenda”, dizia ela quando meu tio, na brincadeira, perguntava se Jeová era homem ou mulher. Ríamos baixinho dessa heresia, senão era surra na certa. E aguardávamos minha avó sair para a reunião no Salão do Reino ou pregar de casa em casa para fugirmos com Mirinho.

 

Nessa de passar temporadas lá, os sobrinhos tinham permissão de entrar no quarto dos tios. Escurinho era o outro, mas esse gostava de Michael Jackson e tinha black power, o ouriçador no bolso de trás da calça. Entre revistas pornográficas, fitas cassetes de soul music e apostilas de cursos por correspondência, um livro apareceu para mim dentro de uma caixa de papelão. Volumoso e colorido na capa: Bahia de Todos-os-Santos: guia de ruas e mistérios, de Jorge Amado, de 1977. Tio Mirinho havia comprado para fazer bonito quando conhecesse alguma gringa e a levasse para um tour. O texto falava de uma cidade que eu não conhecia e as ilustrações de Carlos Bastos davam todo o atrativo para um garoto apaixonado por leitura. Mainha já permitia que eu lesse aos dez, doze anos, John Steinbeck, Irving Wallace, Agatha Christie e Bukowski pelo saudoso Círculo do Livro e outras edições dos anos 1980. Mas Jorge Amado era inédito.

 

O “guia” tornava-se vivo quando Tio Mirinho me levava para um terreiro de candomblé no Lobato, para um sambão na Festa da Ribeira, para uma feijoada na Feira de São Joaquim… Mas seu roteiro principal ficava além da Praça Municipal, fosse na casa de uma namorada na Cruz do Pascoal, num ensaio do Gandhi, no Terreiro de Jesus para uma talagada na Cantina da Lua, fosse um bate-papo com seus amigos de capoeira em Mestre Bimba, uma passagem pela missa da Terça da Bênção na Rosário dos Pretos…

 

Anos depois, quando já pesquisava a obra de Caymmi, ecoava em meus ouvidos a sua música 365 igrejas ao caminhar pelo Pelourinho. No documentário Um certo Dorival Caymmi (2000), de Aluísio Didier, o cantor e compositor falou sobre suas memórias do Centro, onde nasceu e morou até os 23 anos, quando se mudou para o Rio de Janeiro. Ele destaca a “visão bonita pra cima”, se referindo às torres das igrejas como os pontos mais altos da cidade. Jorge em seu livro dedica um capítulo especial para o compadre e parceiro Caymmi, a quem chama de “o cantor das graças da Bahia”.

 

Ambos só se conheceram na Capital Federal em 1939, mas é bem provável que tenham se cruzado nos anos 1920 pelas ruas do Centro. A diferença de idade era de dois anos. Jorge Amado é de 1912; Dorival, de 1914. O escritor tinha dezesseis anos quando morou por uns dois anos num sobrado na Ladeira do Pelourinho. E o compositor na Ladeira do Carmo dos onze aos dezessete anos. Entre 1928 e 1930, os dois futuros Obás de Xangô do Ilê Axé Opô Afonjá vivenciaram no mesmo período a “universidade vasta e vária” do Pelourinho. O resultado desse aprendizado está em seus romances e canções. Exu abriu bem os caminhos.

 

Hoje, morador do Centro Histórico, vejo de minha janela as torres da maioria das igrejas do Pelourinho e ouço seus sinos seculares. Em dia de ensaio do Olodum ou Cortejo Afro, ouço também os tambores reverberando sua ancestralidade.

 

Quando decidi morar perto “da velha São Salvador” cantada por Caymmi, eu tinha outros motivos. Mas com o tempo fui vendo que me reintegrava levemente a esse território que meu tio me mostrou.

 

Quando saio com minha máquina fotográfica para registrar essas ruas e mistérios da Cidade da Bahia, sempre vejo passar por mim um menino magro, negro, cabelo crespo dividido de lado, bermuda jeans folgada, camisa de botão e tênis Conga. Ele acompanha seu tio capoeirista. Param mais adiante num tabuleiro no Terreiro de Jesus. O menino pede bolinho de estudante. A baiana acabara de fritar alguns. Ao polvilhar com açúcar e canela, o cheiro me desconcerta de saudade. Tento flagrar a primeira mordida do garoto no quitute, mas o cartão de memória só anda cheio. Enquanto eu libero espaço, deletando fotos repetidas, eles somem efêmeros…

 

A minha esperança é de que ele apareça com sua mãe na esquina do Palácio Rio Branco no próximo mês e a convença depois de uma manhã de compras na Avenida Sete e Rua Chile comer um bolinho no Pelô.

 

Marielson Carvalho é escritor, fotógrafo e professor de Literatura da Universidade Estadual da Bahia. Autor de Caymmianos – Personagens das canções de Dorival Caymmi.

 

 

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