BAR: SOBRENOME ESPERANÇA

 

Foto: Amanda Oliveira

 

Seria indigno começar sob o signo da trapaça, por isso meto logo a confissão: ao contrário do que sugere o título, isto não é (apenas) uma crônica biográfica sobre uma budega. É muito mais. Sou pretensioso, reconheço. 

 

Avisados? Viajemos. 

 

Seguinte é este. Geograficamente, talvez nem tanto. Porém, se abandonarmos a rigidez dos mapas cartográficos e nos guiarmos pelas afetividades, podemos afirmar, com pouca margem de erro: raros eram os lugares que possuíam o cheiro, suor, sabor e, por que não dizer?, espírito rebelde dos tempos idos e fudidos no Centro Histórico de Salvadolores quanto o Bar Quintal do Raso da Catarina, especialmente na década de 80 do século passado.

 

A fauna que iluminava o insalubre e delicioso recinto era diversa e barulhenta. Os debates, acalorados e alegres, sempre permeados por muita música e poesia. Até os tradicionais chatos tinham algum charme, muito provavelmente porque todos estávamos entorpecidos por príncipes malucos, mistura que azucrina qualquer juízo.

 

Por falar em misturas, artistas das mais inusitadas áreas se juntavam aos estudantes, profissionais liberais e militantes políticos. Apesar de um ambiente predominantemente de esquerda, existia pluralidade. E generosidades. A campanha para o garçom Quitério visitar a Nicarágua sandinista, a partir das vendas do jornal Barricada Internacional e outras mumunhas, confirmava uma das máximas do local: “a gorjeta é fruto de uma relação poética entre o garçom e o cliente”.

 

A (des)propósito, recordo que meu carrasco e finado genitor, ao me flagrar com um exemplar do subversivo veículo, rogou a praga. “Tomara que os militares lhe peguem”. Só achei graça e prossegui na luta, digo, na farra.  Porém, quando a farra chegou ao fim, em meados da década de 90 e a ressaca se abateu após uma longa batalha que o quixotesco Franco Barreto travou contra a Associação dos Engenheiros Agrônomos da Bahia, os habitués fundaram o Movimento dos Sem Bar. E, deslocados, percorreram a cidade, do antigo Mercado do Peixe, no Rio Vermelho, até o Jardim da Saudade. Sim, iam lá navegar nas noites etílicas do cemitério. Não me recordo agora se foi o poeta Ruy Espinheira ou crítico de cinema André Setaro que me confidenciou certa feita. “De todos os locais que temos andado, este daqui é o melhor. Podemos beber em paz”.

 

Mas derivo. O fato é que, atordoado com o encerramento daquele ciclo, cogitei a possibilidade de jogar para escanteio até mesmo os meus tradicionais óculos de Dr. Pangloss que me acompanham ancestralmente. E, palhaço das perdidas ilusões, pensei que aqui na província estava a se confirmar o triste vaticínio que Russell Jacoby acabara de fazer em “Os últimos Intelectuais: A cultura americana na era da academia”. Para não lhes dar trabalhos, pois sei que vocês são pessoas ocupadas, sem tempo para maiores debates, farei um resumo, sem muita profundidade, como sói, das 288 páginas do livro em apenas um parágrafo.

 

Vamos lá. De acordo com o referido historiador, a boemia e os seus (mal)ditos frutos (filósofos, artistas e quejandos) praticamente foram extintos pelas implacáveis mudanças ocorridas nas configurações das cidades em meados da década de 60 do século passado. Ao se transformar, a urbe matou também uma geração de pensadores, que se deslocou dos butecos, vielas, ladeiras e farrapos (beijos, Tom Correia) para as fábricas de diploma. Com isso, os insubmissos de antanho, com suas ações e discursos criativos, cederam lugar ao intelectual de academia, proprietários de textos empolados e do inabalável amor à subvenção pública. Enfim, a originalidade perdeu para o enfado.

 

Pois muito bem, digo, pois muito mal. Este, em resumo, era meu receio pouco mais de 20 anos atrás na nossa perdida Batalha de Stalingrado no Quintal. Porém, hoje, apesar dos desmantelos e de saber que não há motivos para festa, ora esta, não sei rir à toa, a verdade, esta traquina menina nostálgica que não salva nem liberta, é uma só: sobrevivemos. Ou, para usar outro axioma do antigo Raso da Catarina: bebemos e não morremos.

 

E não morremos apenas porque o Raso da Catarina se reinventou. Os outros bares, que permaneceram ou se disfarçaram, conseguiram preservar a alma rebelde do centro soteropolitano, se é que o centro ou qualquer outro lugar tem alma. Contudo, possuindo ou não esta etérea entidade, o fato é que este nosso querido lugar foi salvo pelos butecos. Aliás, enquanto o resto da cidade e do país foi tomado por outras indústrias de felicidades, aqui rolou o inverso e até igreja, como no caso da Barroquinha, acabou se transformando em espaço cultural.

 

Permitem-me um parêntese. Vou abrir com jeitinho. (Sim, minha comadre, mesmo sem PowerPoint, podemos afirmar que as duas indústrias mais prósperas de quase toda e cidade são a da fé e a farmacêutica. Das janelas, sejam as laterais do quarto de dormir ou as do buzu, para onde a gente direcione nossa obnubilada visão sempre aparece uma igreja ou um outro estabelecimento comercial que também negocia fórmulas milagrosas. E neste caso, menina Susan, a doença não é apenas metáfora. É uma triste paisagem sem cura. E, quando as gentes que habitam estes outros espaços acordar, a felicidade não vai desabar sobre os ombros).

 

Porém, graças aos 600 DEMÔNHOS, no centro a situação ainda é diferente. Embriagamo-nos de vinho, de poesia e de paixões nos mais diversos estabelecimentos que aqui nos proporcionam histórias, afetos & projetos que já foram e são vividos e sonhados. Esta Revista Laroyê é de todo o Brasil e, quiçá, até da Bahia, mas é principalmente, pelo menos pra mim, mais uma destas publicações, igual à Barricada de Quitério, que será companhia nas mesas das budegas centrais e periféricas.

 

É isso, menino Sartre: enquanto os butecos triunfarem, não perderemos a esperança.

 

Franciel Cruz [Irecê, Bahia] é pós-graduado em dança de rato, com especialização em ingresia. É autor de “Ingresia, chibanças e 600 demônhos” [2018].

 

 

Acesse a Revista