ENVELHEÇO NA CIDADE

 

Foto: Coletivo Cutucar

 

Hoje levei uns livros na Lapinha, bairro onde cresci. Por Deus, o que fizeram daquele lugar? Difícil de acreditar, mas arrancaram o palanque de concreto. Como sempre, jogaram fora a simplicidade. Agora é apenas uma praça que imita tantas outras praças. Um amontoado de banquinhos coloridos e muretas sem razão. Parece que jogaram um balde de Lego pra cima e depois tentaram encaixar algumas peças. São muitas grades, formas, mesas, letreiros e cores, muitas cores. O mais incrível é como esse showzinho de cimento e tinta bate na cabeças das pessoas. Nenhuma família na porta de casa. Nenhum grupo de amigos sentados na porta da igreja a matar o tempo. Ninguém tomava uma Coca-Cola em pé e sem pressa na banca de revista. Pelo contrário, vi pessoas correndo. Corriam pra academia, pro mercadinho, pra lotérica, seja lá pra onde mais estavam indo. Todos com pressa. E os que bebiam nos bares estavam apenas de passagem. Como se não houvesse ninguém ali de verdade. 

 

Quando me mudei da Lapinha, fui morar no IAPI. Outro bairro de periferia. Um corredor de casas simples com transversais tranquilas e arborizadas. Você tinha pequenos negócios familiares. Uma sorveteria, um armarinho, coisas assim. Você ainda escutava as cigarras no final da tarde e podia sentir o cheiro do pão quente que vinha da padaria. Meus velhos ainda moram por lá. E quando vou visitá-los não consigo aguentar muito tempo. Aquilo virou um inferno. As casinhas deram lugar a lojas, quitandas, copiadoras, bares, pizzarias, petshops, supermercados, cursos de inglês, igrejas evangélicas, trinta farmácias, carros de som e paredões. Onde foram parar as calçadas? Claro que a bala ricocheteou nas paredes e acertou as pessoas. Elas não falam mais, gritam. Gritam e xingam e gargalham e trocam socos e aumentam o volume e continuam gritando. Como se estivessem num ringue de lama pra ver quem grita mais. Tudo virou um corredor abafado. As cigarras se mudaram pro interior de Goiás e o cheiro do pão deu lugar a um concreto fedor de x-tudo com gás carbônico, cachorro molhado e Nova Schin. 

 

Por falar em pão, outra noite, ao sair de um serviço no Rio Vermelho, procurei uma padaria, mas só encontrei esse lugar chamado Bakery. Que fique claro, não era uma padaria. Era uma Bakery. Mas lá dentro havia pães de todo tipo. Encostei no balcão.

 

“Quatro cacetinhos, por favor”.

“Cacetinho?”, a atendente me olhou como se um fosse um alienígena com chapéu de palha.

“Pão cacetinho”.

“Não trabalhamos com cacetinho”.

“Sem cacetinho?”

“Rústico?”

“Eu?”

“Gostaria de levar o rústico?”.
“Rústico, o quê?”
“Nosso pão, o rústico”. 

“Ah, o rústico. Me arranja quatro”.

“40 reais”.

“Jesus Cristo. Pelo menos vocês não dizem que é uma padaria”. 

 

Não é de espantar que a turma do Rio Vermelho agora gaste 40 conto pra comprar pão. Eles transformaram o lugar num shopping center. Estou falando de piso blocado, pergolados, lounges, luminosos. Então hoje você tem essa multidão, uma horda de jovens aglutinados como na entrada do cinema, cagando se ali é o Rio Vermelho, o Santo Antônio ou a Ribeira, tirando selfies, passando de mão em mão o novo drink da moda e dizendo, “Ei, agora esse é o lugar descolado e vejam, eu também estou aqui”. Não é boemia. É praça de alimentação. Ouvi dizer também que já colocaram áreas vips na festa dos pescadores. Mas escadas rolantes para a praia parece que é boato.  

 

Então é isso, você pisca os olhos e não reconhece mais a cidade. E não reconhece os rostos, os olhares, os passos. Não foram apenas os orelhões que desapareceram. Novos viadutos e calçadas empurram, chacoalham, jogam pra cima, escondem. As pessoas querem mais e mais e fazem de cada lugar um lugar nenhum. Talvez seja o que eles chamam de evolução, sei lá. Mas há algo de triste nisso tudo. Vou ficar por aqui pensando. Ah, Bono, deixe de ser pé no saco. Você também faz parte desse jogo e desaparece a cada dia. Posso imaginar duas árvores da Lapinha ao te verem hoje e uma diz, “Vê aquele barrigudo? Costumava rir mais.

 

Paulo Bono [Salvador, Bahia] Redator, escritor e roteirista. Autor de Sexy Ugly [Novela, 2019] e Espalitando [Contos e crônicas, 2013]. Participou também das antologias de contos Soteropolitanos [2020] e Casa de Orates [2016].

 

 

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