DE UMA RUA E SEUS RAMALHETES

Foto: Álvaro Villela

 

Minha irmã morava no Garcia e ele morava na Liberdade. Eu morava em Feira de Santana, mas em toda sexta-feira vinha para Salvador vê-lo e só retornava no domingo. Ele era magrelo e, apesar de já ter vinte e cinco anos e de ser professor universitário, parecia um menino, as pernas finas, os dentes tortos. Gastava todo o dinheiro que recebia com livros, por isso eu o amava. Ele saía da Liberdade de bicicleta para me pegar no Garcia. Lá deixava a bicicleta e íamos andando, de mãos dadas, para o Glauber ou para o cine do Politeama. O que esse rapaz tinha de feio também tinha de engraçado e culto. E como me amava! O primeiro beijo aconteceu num banco enorme de cimento que havia no Campo Grande, naquele distante 1996. Nesse dia, ele levou a bicicleta consigo, me acompanhando, conversando muito sobre Italo Calvino, queria me impressionar. E conseguiu. Daí em diante começaram nossas intermináveis caminhadas aos sebos, aos cinemas, às livrarias. O namoro se aprofundou: em menos de seis meses já era meu noivo, com aliança e tudo. Portanto, estando em Salvador, eu não ficava mais no Garcia, ficava em sua casa, na Liberdade. Seu quarto era atulhado de livros. E ele fazia tudo pra mim: passava meus vestidos, esquentava minha comida, colocava meu café, sempre cantando e dançando. Os meus melancólicos vinte anos não gostavam muito dessa sua alegria extrema. Além disso, me contrariavam seus muitos amigos, seu gosto por sol e carnaval. Porém, as coisas entre nós iam bem, líamos muitos livros juntos. Eu lia contos para ele antes de dormir. Poesia não, ele nunca entendeu poesia. 

 

Toda essa história é simultânea ao fechamento da livraria Diliba, lugar que eu adorava ir, na Avenida Sete. Eu não procurava entender por que a livraria estava fechando, eu festejava o acontecimento. Isso em razão de lá haver uma mina de pedras preciosas, tudo com preços acessíveis à minha realidade de estudante de Letras. Foi ele quem me deu a grande notícia. E me chamou para vir de Feira, imediatamente: sendo amigo do vendedor, tais preços se tornariam ainda mais acessíveis. Sim, descambei de Feira de Santana e ele me esperou na rodoviária. Parecia um menino, como já disse; entretanto, alimentava algumas manias: ao se arrumar para sair, ficava nos trinques: com sapato e camisa social. Camisa sem um amassadinho. Porque para isso ele vivia com o ferro de passar na mão. Ele foi o maior passador de ferro que conheci. Não admitia uma nesga de roupa amassada. Sim, me esperou na rodoviária todo aprumado na camisa social. Chegando em sua casa, animadamente me contou do incrível saldão da Diliba, livros a preço de banana. 

 

No outro dia acordamos cedo para irmos à referida livraria. Logo me mostrou seu sapato social novo, iria estrear. Descemos a Pero Vaz para pegarmos o ônibus, de mãos dadas. Foi aí que, no caminho, ele começou a se queixar de aperto no pé; no entanto, disse que não era nada não, estava muito feliz. Solar demais, muita felicidade. Chegando na Diliba, vi os olhos brilhando do vendedor, seu amigo de longas datas. O homem, generosíssimo, me vendeu todo o Italo Calvino, todo o Rubem Fonseca a R$ 1,99 cada livro. Mais José J. Veiga, tudo a R$ 1,99. Isso é que era a grande felicidade! Saímos de lá levando muitas sacolas de plástico pesadas, pois que também comprei livros de teoria e crítica literária grossos. Ele pagou todos os meus livros. Como aquilo tudo me comovia. Eu o amava porque ele amava os livros, me dava livros de presente, compartilhava comigo o que para mim sempre foi o mais importante. Em razão disso é que eu suportava sua falta de melancolia, seus muitos amigos, tanto amor ao sol e ao carnaval. 

 

Ao sairmos da Diliba, descemos à Lapa para pegarmos o ônibus. Percebendo que ele não me acompanhava na calçada, parei e o vi bem atrás, de passo curto. Pensei que talvez fosse o peso das sacolas. Não, era o sapato novo. Sentou-se na calçada e disse para eu esperar. Retirou o sapato para os pés se refrescarem: os calos de lá saltaram, em carne viva. Voltou a calçá-lo e já íamos descer as escadarias que davam para o terminal da Lapa. Ali muita zoada dos vendedores ambulantes, todo um colorido de gente e sol. Pediu-me novamente para parar. Pensei que fosse por conta dos calos, ou para sentir o sol no rosto, mas não. Ali na esquina existia uma loja de cds, entrou. Enquanto eu olhava muitos cds dentro de um balaio na porta da loja, ele comprou, mandou embalar e me deu de presente: “Fados brasileiros”. Sem saber, aquele menino construía uma memória dilacerante de amor para mim. Eu também, sem saber (aos vinte e poucos anos a gente de nada sabe), acolhia aquilo tudo como se fosse algo natural. 

 

Devagarzinho chegamos ao terminal da Lapa. A essa altura ele andava segurando nas paredes. Todos paravam para olhar a cena, muito engraçada: ele, com passos cada vez mais miúdos, carregando um monte de sacolas de livros. Subir no ônibus naquelas condições exigiu paciência dos passageiros e do motorista. Enfim, descemos na Liberdade. Outro sacrifício dele para conseguir pisar no chão e andar até sua casa. Hoje me lembro e me pergunto por que diacho esse menino não tirou de vez aquele sapato cruel e foi andando descalço… Oxe, um rapaz que não se livra de andar arrumadinho de camisa social, engomada, jamais se prestaria a tal transgressão, mesmo gostando tanto de carnaval.

 

 O carnaval. O sol. Os amigos. A Diliba fechou e virou um restaurante. Depois a Civilização Brasileira. Quando esta faliu, assim como todas as outras livrarias de rua de Salvador, eu não mais tive notícia dele.

 

Ângela Vilma [Andaraí, Bahia] Poeta, cronista e professora de Literatura da Universidade Estadual da Bahia. Publicou Aeronauta [2020], A solidão mais funda [2016], Poemas para Antonio [2010], Poemas escritos na pedra [1994] e Beira-Vida [1990].

 

 

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